«Superar o muro – Diálogo entre um muçulmano, um rabino e um cristão»

Livros 4 outubro 2017  •  Tempo de Leitura: 10

“O abraço diante do muro foi sem dúvida, um dos gestos mais emocionantes da viagem. Naquele instante, tentei suspender o diálogo interior e creio que aquele momento terá sido um reflexo daquilo a que eu gosto de chamar a Jerusalém ou Al-Quds celeste. Se esta cidade sagrada foi e continua a ser, para as tradições monoteístas, testemunha de inúmeras divergências, a sua projeção em termos metafísicos é certamente a de um lugar de encontro. Passado o momento tão especial do abraço com o papa Francisco e com o rabino Skorka, comecei a refletir. Penso que o Papa tem inaugurado formas de comunicação de alto valor. Dizemos muitas vezes que uma imagem vale mais que mil palavras, mas, muitas vezes, centenas de imagens não valem um único conceito ou ideia. O Papa gera imagens conceptuais, de altíssimo valor simbólico, mas que também convidam à reflexão profunda. O mesmo faz com os silêncios." (Omar Abboud)

 

A obra desta semana oferece-nos a oportunidade para revisitarmos um momento único, pelo seu carácter simbólico, “profético e de cura”, em que o Papa Francisco, o responsável islâmico Omar Abboud e o rabino Abraham Skorka dão um abraço junto do Muro das Lamentações, em Jerusalém (26 de Maio de 2014), como sinal de diálogo inter-religioso e de paz, capaz de construir pontes para “desfazer os muros” que dividem a humanidade.

 

O padre António Spadaro procura com este livro dar a conhecer o contexto em que se realizou a visita do Pontífice à Terra Santa. Assim, Spadaro, através de entrevistas, conduzidas a Omar Abboud e a Abraham Skorka procura dar a conhecer quem são os rostos que estão por detrás daquele abraço. Com o decorrer das “conversas” é possível perceber quem são, qual é a ligação destas pessoas ao Papa Francisco, quando este ainda era Cardeal na Argentina. Fornecem ao leitor a oportunidade para conhecer, através dos seus testemunhos, o que tem sido feito pelos líderes religiosos Argentinos em favor da paz e do diálogo inter-religioso. São elementos preciosos que permitem compreender o significado e a naturalidade daquele gesto fraterno.

 

Posteriormente, somos convidados a ler as homilias e os discursos enunciados pelo Papa Francisco durante a sua peregrinação à Terra Santa; a oração comum pela paz (Junho de 2014), com as palavras do Papa Francisco e intervenções dos Presidentes Shimon Peres e de Mahmoud Abbas.

 

Por último, é disponibilizado o testemunho, de Gianpaolo Salini, sj, em que este descreve o percurso do Papa Francisco à Jordânia, à Palestina, a Israel e, também, o “Encontro de oração pela paz” nos jardins do Vaticano.

 

Disponibilizamos alguns excertos das entrevistas a:

 

  • OMAR ABBOUD

 

[Diálogo como Encontro]

 

O maior desafio, às vezes, não é sentarmo-nos com aqueles que praticam uma religião diferente, mas convencer aqueles que praticam a nossa. Um aspeto da questão do diálogo, que não se deve negligenciar, é que o modo como o travamos hoje é relativamente novo, porque nos dedicamos a um espectro de atividades muito mais largo do que no passado. Não quero dizer que não houvesse contactos anteriormente, mas é inegavelmente diferente o relevo que tal instância assumiu hoje.

 

[…] A mim, o bom senso diz-me para me sentar à mesa a fim de dialogar e raciocinar com o outro, com quem é diferente, e que não se corre perigo nenhum de deformar a identidade, se tivermos confiança e estivermos seguros daquilo em que cremos. Por outro lado, juntam-se conhecimentos e perspetivas, questões que facilitam a consolidação da convivência. O modo como a história passada se desenrolou não é da nossa responsabilidade: é uma espécie de herança, ao passo que é nossa responsabilidade o modo pelo qual se desenvolverá o futuro. Nesse sentido, temos o dever de construir uma herança.”

 

 

  • ABRAHAM SKORKA

 

[Diálogo e verdade]

 

“Na sua breve e importante visita [o Papa Francisco], fundou a língua da verdade. Desobstruiu o campo do léxico mediático que habitualmente se vende a quem faz a melhor oferta. Inseriu nesta realidade tão conflituosa palavras baseadas no bom senso, na humildade e na dignidade que cada indivíduo merece. Os seus gestos foram eloquentes em relação às partes em causa, a fim de que uns reconheçam a tragédia e os direitos dos outros. E de que todos olhem para dentro de si, a fim de reconhecerem os erros cometidos e de procurarem caminhos para corrigi-los. [...] O fruto mais apreciado que Francisco fez amadurecer nesta viagem foi a abertura de uma dimensão de diálogo diferente entre todas as partes em conflito. Uma dimensão tanto mais necessária na realidade presente, em que habitualmente a experiência do diálogo é vivida, tanto nos casos singulares como a nível social, partindo de nós próprios e acabando em nós próprios.”

 

[Como construir a paz]

 

“Não obstante a complexidade da questão, considero que a paz está ao alcance da mão. Quando os líderes das nações daquela região apreciarem mais a vida e o bem-estar de cada um dos seus cidadãos do que qualquer outra coisa ou ideal, quando os povos da região estiverem dispostos a aceitar o desafio de mudar as suas culturas para construir uma realidade nova, começará a delinear-se o caminho da paz. E considero que, para a solução do conflito, são igualmente necessários momentos em que os líderes se encontrem para rezar, diante das suas consciências, em memória das vítimas das guerras e dos atentados, e das lágrimas dos pais que perderam os seus filhos; que se reencontrem diante do Deus em quem eles acreditam, para meditarem e se empenharem em prol da paz. Os seus povos devem vê-los nessa atitude. Assim, uns começarão a vislumbrar nos outros os seus vizinhos, aqueles com os quais amanhã se ajudarão mutuamente para resolver os problemas da vida quotidiana.”

 

Informação disponível sobre os autores à data da edição desta obra:

“ANTONIO SPADARO (Messina, 1966), jesuíta, é diretor de uma das mais influentes revistas do espaço católico, La Civiltà Cattolica, docente na Universidade Pontifícia Gregoriana, consultor do Conselho Pontifício para a Cultura e do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais. Entre os seus livros mais recentes, contam-se: Ciberteologi@ (Paulinas, 2013), O sonho do papa Francisco (Paulinas, 2014), Temos de ser normais (Paulinas, 2014) e A verdade é um encontro (Paulinas, 2014).

 

OMAR ABBOUD (1966) provém de uma família de imigrantes árabes (sírios, da parte da mãe, e libaneses, da parte do pai). A sua formação cultural islâmica teve várias fontes, todas elas provenientes da casa dos avós, onde contactou com várias pessoas formadas na Universidade al-Azhar (Cairo). O seu avô paterno realizou a primeira tradução do Alcorão para castelhano. Discípulo de Adel Made, o impulsionador do diálogo inter-religioso na Argentina, Omar Abboud tem desempenhado cargos públicos de relevo no município de Buenos Aires. Atualmente dirige a sociedade estatal Corporación Buenos Aires Sur e o Instituto de Diálogo Inter-religioso.

 

ABRAHAM SKORKA (1950) é filho de imigrantes judeus polacos, que chegaram pelos anos 20 do século passado à Argentina. Muitos membros da sua família, que permaneceram na Polónia, foram vítimas da Shoah. Formado em Química pelo Instituto Superior de Ciências Hebraicas, entrou depois no Seminário Rabínico Latino-americano Marshall T. Meyer (Buenos Aires), onde se tornou rabino. Em 1979, doutorou-se em Ciências Químicas. Hoje, é líder da comunidade Benei Tikva e reitor do seminário rabínico onde se formou. “

 

Índice:

Introdução – Desfazer o muro com um abraço | Conversas com… Omar Abboud, Abraham Skorka | Homilias e discursos – o Papa Francisco na Terra Santa | Orações pela paz | Os factos – Gianpaolo Salini Sj.

 

Público-alvo: Jovem/Adulto

 

Ficha técnica: Título – Superar o muro – Diálogo entre um muçulmano, um rabino e um cristão| Autores - Antonio Spadaro; Omar Abboud; Abraham Skorka; Papa Francisco | Editor – Paulinas Editora, 1 ed. Fevereiro 2015, 208 págs. | ISBN: 978-989-673-435-0.

Agostinho Faria

Redator Livros

Licenciado em Comunicação Social e Cultural. Pós-graduado em Ciências da Informação e da Documentação. A viajar no surpreendente mundo novo das Paulinas Multimédia Lisboa.

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