Livro da semana: «Gente feliz com fé - Conversas na rádio»

Livros 16 agosto 2017  •  Tempo de Leitura: 13

“É fundamental percebermos que Deus vem, na vida de todos os dias. Deus não é a emergência do extraordinário, mas Deus dá-se a ver, a tocar, a cheirar, a degustar, no mais ordinário dos nossos gestos, das nossas rotinas, dos nossos quotidianos. Porque só assim, dessa forma, é que a fé pode fazer corpo, história, com o mais comum das nossas vidas” - José Tolentino Mendonça

 

A obra, da jornalista Ângela Roque, “Gente feliz com fé - Conversas na rádio” reúne uma coletânea de entrevistas e conversas transmitidas na Rádio Renascença (RR) em espaços em que a autora foi responsável editorial, nos últimos anos: o programa Princípio e Fim e nos últimos meses, às segundas feiras no espaço que tem dedicado aos temas sociais e relacionados com a vida da Igreja.

 

Neste livro, temos acesso a partilhas e a relatos de experiências de vida e fé não só transmitidas por figuras públicas, mas também por cidadãos desconhecidos que, “nos esmagam pelo exemplo de generosidade, empenho e dedicação aos outros”. A autora pretende, “fazer com que estes testemunhos de Gente feliz com fé possam perdurar para lá da efemeridade da rádio. Que estas páginas inspirem quem as ler a fazer mais e melhor”.

 

Hoje somos confrontados pelos meios de comunicação social com grandes catástrofes de natureza humana e natural, onde primam o desalento, a aflição e a falta de amor. Ângela Roque faz-nos reconhecer que existem pessoas movidas por um profundo anseio em mudar o mundo, por isso, levam um pouco de si aos outros, com generosidade e bondade são portadoras de fé, amor e esperança.

 

Fazemos nossas, as palavras inspiradoras de João Aguiar Campos, no antefácio:

 

“[…] pessoas que gostam de pessoas e com elas fazem caminho; pessoas de olhos lavados sobre os outros e as suas circunstâncias; pessoas de coração aberto e um grande banco onde descansam conversas ou se alimenta o futuro; pessoas sem megafone, mas de palavra vivida; pessoas capazes da festa no meio das dificuldades; pessoas que purificam a vida e desafiam a vivê-la em esperança; pessoas que nas suas expressões usam a gramática dos dias normais e, nos seus ritmos, vivem o desejo de semear, nos sítios onde estão ou aonde vão, o bem, a bondade e a beleza.”

 

Partilhamos excertos de duas entrevistas que constam na obra:

 

“O casamento não é um prémio por um namoro feliz - Tiago Cavaco (pastor baptista e músico) […]

 

O Tiago escreve que o casamento requer um processo que é «exigente» e no qual é preciso «investir e ser paciente». As pessoas, hoje em dia, desistem facilmente à primeira dificuldade?

 

Eu acho que sim. Eu não tenho como não usar essa simplificação, porque acho que é uma simplificação muito justa acerca da nossa cultura e do nosso tempo. Nós gostamos de rapidamente colher os frutos daquilo que estamos a semear, e temos muita dificuldade em perceber que esse processo de semear, de germinar e, depois, mais tarde, de colher, leva o seu tempo. E um casamento não é diferente. […]

 

Relativamente aos filhos, achei curioso que fale da forma como as gerações de hoje encaram a maternidade e a paternidade. Os pais e mães são-no cada vez mais tarde, e o Tiago afirma que isto revela «a infantilidade de uma geração que quanto mais sabe menos parece aprender».  Há de facto, muita imaturidade hoje em dia na forma como se encara o construir família e a necessidade, para a própria sociedade, de se ter filhos?

 

Eu creio que sim. […] Ora, eu não estou a dizer que não haja um processo de conhecimento, mas tendo em conta que a maior parte do meu amadurecimento, até enquanto homem, se deve ao facto de ter sido pai, hoje uma das coisa que eu não faria… bom, não temos como voltar atrás, mas por exemplo não atrasaria o momento dos filhos da maneira como aconteceu na minha vida, porque o momento dos filhos foi uma das alavancas mais importantes para a minha própria transformação, não só enquanto pai, mas enquanto marido.”

 

“Sou como o papa Francisco, não me faz bem viver sozinho - Filipe Rodrigues (frade dominicano) […]

 

É responsável provincial pela animação e acompanhamento dos candidatos à Ordem dos Pregadores. Qual é o principal conselho que costuma dar a estes candidatos?

 

Sejam verdadeiros e dispostos a partilhar a vida. Não estamos a aceitar anjos, estamos a aceitar pessoas, com as suas dificuldades, com os seus dramas, com os seus problemas, com as suas depressões. À partida, ninguém está excluído, mas, havendo abertura, uma pessoa que se entregue nas mãos do outro… [...]

 

Fala-se muito em crise de vocações. Há ou não crise de vocações?

 

Na realidade há, mas não há crise de candidatos. Há desmotivação, há desencanto. Porque também temos uma ideia da vida religiosa e da vida de padre como os perfeitos…

 

A fasquia fica muito alta?

 

Imaginamos que é assim. […] Nós fazemos uma ideia dos frades, dos padres, como as pessoas mais perfeitas deste mundo. Não, nós não somos melhores que os outros, temos é compromissos, fazemos é mais esforços para sermos cada vez mais transparentes na vivência do Evangelho, e esse é que é o critério.

 

O que é que falha no processo, em sua opinião? Porque é que a vida consagrada não tem mais gente?

 

Eu creio que o que falha aqui é o acompanhamento. Tem de haver um bom discernimento, antes da admissão, e depois tem de haver acompanhamento. […] Porque, às vezes, o problema das congregações religiosas também é este – nós somos poucos, cada vez mais velhos e com as mesmas obras. Temos muita dificuldade em fechar uma casa, temos muita dificuldade em fechar um colégio, temos muita dificuldade em deixar um hospital onde sempre trabalhamos.

 

Há um dominicano que chama a isto a «crise de realismo». Somos os mesmos, com as mesmas coisas, mas mais velhos. Ora, se nós temos vocações novas, das duas uma, ou abdicamos das coisas que temos para nos entregarmos aos mais novos, que isso é que é o futuro e isso é que é a esperança, ou, se continuamos nas nossas coisas, e os mais novos vêm, sentem-se um bocado perdidos na casa, no convento.

 

O problema de nós não termos vocações não é o problema de desaparecermos, é porque o Evangelho não está a chegar aos sítios, porque não temos gente, este é que é o problema. Não é uma questão de número, é uma questão de objectivo. Qual é o nosso objectivo? Anunciar o Evangelho. Se não tivermos mão-de-obra, se não tivermos gente que entregue a sua vida por causa do Evangelho, o que se está a perder é a mensagem. Não são as pessoas, é a mensagem.”

 

Pode aceder à entrevista a Ângela Roque, sobre o livro “Gente feliz com fé” (Agência Ecclesia): 

 

 

Índice

“Antefácio João Aguiar Campos

Introdução Ângela Roque

CONVERSAS NA RÁDIO

A fé é a gasolina da minha vida | Kiko Martins

Sou como o papa Francisco, não me faz bem viver sozinho | Filipe Rodrigues

A música ajuda a aproximar de Deus | Rão Kyao

A mística e a santidade não só para heróis | Tolentino Mendonça

O casamento não é um prémio por um namoro feliz | Tiago Cavaco

Façam voluntariado com o coração | Maria da Graça Nobre e Helena Grilo

Não sou um pintor padre. Sou um padre que pinta | D. João Marcos

O amor é possível, e é possível ser para sempre | João Só

Aprender a rezar é como aprender a falar | Teresa Power

Falta sensibilidade para combater o tráfico humano | Júlia Bacelar

Vivi sempre a comunicação e o sacerdócio com grande entrega e alegria | António Rego

Eu não concebo o jornalismo sem o anúncio de boas notícias | Tony Neves

É possível evangelizar quem sofre de doença mental | Paula Carneiro e Vítor Monteiro

A Igreja portuguesa perdeu o sal e continua sisuda | Bento Domingues

A indiferença empobre[ce] os corações, e está na base de todos os conflitos | Irene Guia

Partir é a nossa vida | Leonel Claro

Os militares podem confiar nos capelães mais do que nos comandantes | Jorge Matos

Deus chama-nos, mas, com tanto barulho à volta de nós, é preciso atenção | Quintino Lourenço da Silva | Felicidade Castro Frutado

Fazer voluntariado dá saúde | Fernanda Figueiredo dos Santos

Quando redescobri Deus, percebi que o vazio que sentia era a falta que Ele me fazia | Raquel Dias

É preciso falar de Deus a quem está preso | João Gonçalves | Inês Leitão | Daniela Leitão

Pela educação muda-se a sociedade | Artur Pereira

A experiência de Taizé muda-nos por dentro, e muda a nossa vida | Marcin Zatyka | Lúcia Pedrosa

Não há um modelo único de ser padre | José Miguel Barata Pereira

Porque é que um padre não pode estar nos palcos? | Victor Silva

Perdoar também se aprende | Albino Brás

O voluntariado fez-me mudar de curso, de amigos e de vida | Catarina Lopes António

O coração de um sacerdote tem de estar preferencialmente do lado dos mais frágeis | Paulo Teia

Sempre senti o desejo de ir aonde ninguém quer ir | Joana Gomes

Com a «Missão País» aprendi a interessar-me mais pelas pessoas | Manuel Albuquerque

É necessário que o Papa vá ao Sudão do Sul para consolar o povo | José Vieira

Como é que permitimos que o drama dos refugiados esteja a acontecer | Rita Coelho

Os empresários e gestores cristãos têm uma responsabilidade acrescida na forma como exercem a sua actividade | Luís Lobo Xavier

As crianças têm muita sede de falar de questões espirituais e de fé | Maria Teresa Maia Gonzalez

Não concebo a minha actividade política sem ter também uma orientação de fé | Pedro Batista-Bastos”

 

Público-alvo: Jovem/Adulto

 

Ficha técnica:

Título – “Gente feliz com fé - Conversas na rádio”
Autor – Ângela Roque

Editor – Paulinas Editora, 1 ed. Junho 2017, 288 págs.

ISBN: 978-989-673-587-6

 

Agostinho Faria

Redator Livros

Licenciado em Comunicação Social e Cultural. Pós-graduado em Ciências da Informação e da Documentação. A viajar no surpreendente mundo novo das Paulinas Multimédia Lisboa.

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