Livro da semana: «O meu Deus é um Deus ferido»

Livros 21 novembro 2018  •  Tempo de Leitura: 8 min

Sinopse:

Tomáš Halík começa esta obra a partir da aparição de Cristo Ressuscitado a S. Tomé (Jo 20, 24-29). O apóstolo que necessitou de ver para acreditar. Também, cada um de nós continua muitas vezes a viver a dúvida de Tomé. O autor conta que leu este excerto do Evangelho de S. João quando se encontrava na catedral de Madrasta na Índia. Halík refere que, só posteriormente, quando visitou o orfanato dessa localidade é que o “texto” que lera nessa manhã se abriu e lhe falou de um “modo inteiramente diferente e mais profundo”. O autor assumiu que esta nova perspectiva o conduziu a um “caminho de espiritualidade” que até então desconhecia.

 

Halík procura desafiar o leitor a não ser indiferente face às “feridas dolorosas, todo o sofrimento do mundo e da humanidade”. Para o autor estas feridas são chagas de Cristo que é necessário tocar. “Crer em Cristo, poder dizer «meu Senhor e meu Deus», só posso fazê-lo se tocar nestas feridas, de que também o nosso mundo está hoje cheio. Caso contrário, só em vão e sem sentido clamarei «Senhor, Senhor!»”. São as chagas do Ressuscitado que nos mostram a profundidade com que Cristo nos amou, se entregou por nós e também por esta humanidade ferida. Através das feridas da humanidade é possível tocar Deus. Trata-se de um convite para sairmos dos nossos medos, preconceitos, olharmos também para a nossas feridas e traçarmos um caminho de fé correspondido pelo amor de Deus.

 

Apresentamos alguns excertos da obra:

 

A porta dos feridos (Capítulo 1)

 

“Ali, [no orfanato] em Madrasta, tornou-se-me, para sempre, óbvio o seguinte: não tenho o direito de professar a fé em Deus, se não tomar a sério o sofrimento dos meus próximos e vizinhos. Uma fé que prefere fechar os olhos perante a dor humana é apenas uma ilusão ou ópio; […] Mas uma coisa é ainda muito importante: Na perceção da dor que há no mundo, não podemos centrar-nos apenas nos «problemas sociais», mesmo que este tipo de sofrimento brade, com razão, à consciência moral do mundo e de cada um de nós, e a sua voz não deva deixar de se ouvir. Mas nem por um só instante nos é permitido pensar que «levaremos a cabo» esta tarefa vital, se contribuirmos para as atividades caritativas em África, se dermos uma esmola a um mendigo ou se, nas escolhas de programas políticos, votarmos com acentos sociais, embora isto seja deveras importante. Mas não basta: há ainda muitas outras dores ocultas no íntimo dos homens, à nossa volta. E também não damos pelas feridas ainda abertas e por sarar em nós próprios: se as reconhecermos, e também à sua cura, contribuímos igualmente para a «cura do mundo»; é este até, por vezes, um pressuposto necessário para nos apercebermos, com sensibilidade, da dor dos outros e podermos ajudá-los.” (p. 22-23)

[…]

 

“Talvez Jesus, ao reacender a fé de Tomé pelo toque nas chagas, tenha querido que ele dissesse justamente o que para mim, como que atingido por um raio, se tornou claro no orfanato de Madrasta: Onde tu tocares no sofrimento humano – e talvez só aí! – ficas a saber que eu estou vivo, que «Eu sou». Encontras-me por toda a parte onde os homens sofrem. Não fujas de mim em nenhum destes encontros. Não tenhas medo! Não sejas incrédulo, mas crê!” (p. 26)

 

Adoração do Cordeiro (Capitulo 6)

“Neste livro, o leitor não encontra - e é de esperar que não busque - instruções para a cura das feridas do nosso mundo; é que sempre nutri uma desconfiança muito pronunciada perante todas as receitas de salvação. Se estas considerações hão de servir para alguma coisa, então, será para intimar à «não-indiferença», à coragem de ver. Cada homem deve, pois, decidir-se pessoalmente se, como, em que medida e onde quer e pode empenhar-se, de uma forma concreta, no esforço de curar as feridas humanas. Mas, primeiro, terá de ser capaz de delas se aperceber.” (p. 104-105)

 

Informação disponível sobre o autor à data da edição desta obra:

“TOMÁŠ HAlÍK nasceu em Praga, no ano de 1948, licenciou-se em Ciências Sociais e Humanas, em 1972, na Universidade Charles, Praga. Pouco depois, iniciou, clandestinamente, a formação superior em Teologia, que veio a concluir, já depois da queda do Muro de Berlim, numa importante universidade pontifícia de Roma.

Foi perseguido, durante a ocupação comunista, como «inimigo do regime». Trabalhou como psicoterapeuta numa unidade de acompanhamento a toxicodependentes. Em 1978, sempre na clandestinidade, foi ordenado sacerdote e tornou-se um dos assessores mais próximos do cardeal Tomášek, figura emblemática da chamada «Igreja do Silêncio», Com o fim do comunismo, foi nomeado conselheiro do presidente Václav Havel e, posteriormente, secretário-geral da Conferência Episcopal Checa.

Atualmente, ensina Sociologia e Filosofia da Religião na Universidade Charles, em Praga, Tem também exercido a docência, como professor convidado, em universidades tão prestigiadas como Oxford, Cambridge e Harvard, É membro da Academia Europeia da Ciência e da Arte e foi consultor do Conselho Pontifício para o Diálogo com os Não-Crentes.


Os seus livros estão traduzidos em numerosas línguas, Foi distinguido com prémios nacionais e internacionais de literatura e de diálogo intercultural e inter-religioso, como o Prémio Cardeal Konig (2003), o Prémio Romano Guardini (2010), o Prémio Templeton (2014), que distingue personalidades vivas que deram «um contributo excecional para afirmar a dimensão espiritual da vida», e ainda o galardão de «Melhor livro Europeu de Teologia» de 2009/10, recebido pelo seu livro Paciência com Deus.”

 

Índice:

Prefácio – Tocar e ser tocado | 1. A porta dos feridos; 2. Sem distância; 3. Mistério do coração; 4. O véu rasgado ao meio; 5. O Deus que dança; 6. A adoração do Cordeiro; 7. Estigmas e perdão; 8. Pancadas na parede; 9. Corpos; 10. Noiva formosa, Igreja lastimosa; 11. Pequeno é o lugar da verdade; 12. Verónica e a marca do rosto; 13. Feridas transformadas; 14. A última bem-aventurança.

 

Público-alvo: Jovem/Adulto

 

Ficha técnica: Título – O meu Deus é um Deus ferido | Prefácio – Vasco Pinto de Magalhães| Autor – Tomáš Halík | Editor – Paulinas Editora, 1 ed. Março 2015, 240 págs. | ISBN: 978-989-673-441-1. 

Agostinho Faria

Redator Livros

Licenciado em Comunicação Social e Cultural. Pós-graduado em Ciências da Informação e da Documentação. A viajar no surpreendente mundo novo das Paulinas Multimédia Lisboa.

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