O POBRE SALVATOR MUNDI

Liturgia 18 novembro 2017  •  Tempo de Leitura: 3 min

Nas vésperas do dia mundial dos pobres, instituído pelo Papa Francisco, foi divulgada a notícia da venda do quadro de Leonardo Da Vinci, Salvator Mundi, pelo valor recorde de 450 milhões de dólares – cerca de 380 milhões de euros - a um comprador anónimo. A comunicação e as redes sociais divulgaram vídeos e comentários sobre a obra-prima do pintor renascentista e analisaram ao pormenor a singularidade do quadro: o rosto do Messias surge de um fundo escuro, envolvido por uma misteriosa neblina, uma luz ténue, divina, um olhar sereno e definitivo atrai o espectador. A mão direita levantada em sinal de bênção enquanto a esquerda segura uma bola de cristal, e o dominante manto azul-celeste.

 

Para os seguidores do Salvador, o episódio não pode deixar de suscitar alguma estupefação: como é que o Servo dos pobres e dos excluídos, Aquele que se fez o último e partilhou a sorte dos condenados infelizes foi tema de um quadro que agora é propriedade dos donos deste mundo? O que é que Ele diria se viesse de novo? E se fosse investido, por ex., uma quantia semelhante em meios de produção, associada a uma boa gestão, nos países mais pobres? Qual seria o resultado?

 

Não quero com isto desvalorizar a obra. Considero que as obras de arte deste género não têm preço e deveriam estar em instituições públicas que garantissem a todos a possibilidade de as comtemplar como património da humanidade que são. Mas aqueles 19 minutos que durou a venda do quadro pela leiloeira Christie’s colocou em evidência a escandalosa assimetria deste mundo: há um reduzido grupo de bilionários que têm tudo e outros, a multidão de pobres anónimos, sem valor, quase não têm os meios indispensáveis para uma vida digna. Com razão dizia E. Iglesias «este século seria fascinante e cruel». É fascinante para aqueles que têm acesso à informação, à saúde, ao trabalho, às modernas tecnologias, etc. mas também é simplesmente cruel para os pobres e esquecidos, aqueles que não nasceram num berço abençoado, os habitantes das periferias das nossas cidades.

 

Como seguidores do Salvador do Mundo não podemos esquecer que Ele atou um laço invisível e inquebrantável entre amor a Deus e amor ao próximo de tal modo que desprezar o próximo é maltratar o próprio Deus.

 

Em 1985, um habitante de Lima dizia a S. João Paulo II em tom amargurado: «temos fome de pão, e temos fome de Deus» ao que o Papa polaco respondeu com simplicidade e vigor: «que a fome de Deus permaneça e a fome de pão desapareça» (cit Gutiérrez; Mullher, 2014). Não há outro caminho: a luta contra a pobreza é um dever de todos os batizados.

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