Ao contrário

Liturgia 12 janeiro 2020  •  Tempo de Leitura: 4 min

BAPTISMO DO SENHOR Ano A

“Abriram-se os céus e Jesus viu o Espírito de Deus 

descer como uma pomba e pousar sobre Ele.”

Mt 3, 16

 

Não conheço ninguém que goste de filas. Ter de esperar pela vez, ouvir os números anunciados até que chegue o que nos calhou, perceber que a fila da esquerda ou a da direita parecem andar mais depressa que a nossa, geram impaciência e irritação. Mas é a condição de alguma civilidade e justiça quando a procura é muita. E imagino a serenidade, senão um leve sorriso nos lábios de Jesus quando se pôs na fila dos pecadores, na margem do Jordão, para ir receber o baptismo de João. Mas então, Ele também precisava daquele baptismo? E não podia ter escolhido uma hora de menos afluência? Pois, parece que Jesus “anda ao contrário” das nossas ideias imediatas!

 

O diálogo de João com Jesus revela a surpresa do primeiro e a firmeza do segundo. Escreve S. Gregório de Nazianzo: “João nega-se, Jesus insiste. Então, “sou eu que preciso que tu me baptizes”, diz a lâmpada ao sol, a voz à Palavra, o amigo ao Esposo, o maior entre os nascidos de mulher ao Primogénito de toda a criação.” O Baptista será um dos muitos que se admirarão do modo de Jesus viver a sua missão: não como Messias triunfante, mas na mansidão e humildade de coração. Ao contrário das expectativas de muitos do seu tempo (e de outros tempos…) Jesus recusa colocar-se no lugar do Pai e conforma-se aos seus desígnios: vive a sua missão segundo o coração de Deus e não segundo o pensar dos homens. Ao esperar a sua vez na fila dos pecadores, Jesus mostra que nada do que é humano lhe é estranho, que veio precisamente mergulhar na fragilidade humana para estender a todos as suas mãos e libertar-nos do mal e da morte. A nossa primeira conversão é aceitar a proximidade e a renovação que Ele nos oferece. É tentador manter “Deus à distância”, utilizá-l’O como recurso para a nossa “vidinha religiosa” (e já agora para os sucessos que ambicionamos), pedir-Lhe bênçãos para continuar a fazer as coisas “à nossa maneira”! Se Ele nos desafia “ao contrário”, tudo vacila!

 

 O céu que se abre, o Espírito que desce como uma pomba e a voz do Pai que O identifica como Filho muito amado têm sabor de uma nova criação. Os céus abertos indicam uma união que Jesus realizará pela reconciliação dos homens entre si e com o Pai. Não há uma vida “daqui” e outra “d’além”: há a vida com Deus ou sem Ele, o poder que serve ou aquele que escraviza, a riqueza que se partilha ou a indiferença que mata. O Espírito descido como uma pomba sublinha a suavidade da acção de Cristo, que deve prolongar-se na dos seus discípulos e da Igreja: a vida nova que o Baptismo gera em nós é graça para o mundo que se oferece em generosidade e humildade. A voz do Pai estende-se, a partir de Jesus, a todos os que escolhem viver “ao contrário” dos critérios egoístas e auto-suficientes. Como filhos no Filho e cheios da compaixão de ser irmãos!

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