Irrequieta Estrela

Liturgia 04 janeiro 2020  •  Tempo de Leitura: 4 min

EPIFANIA DO SENHOR Ano A

“Eis que a estrela que tinham visto no Oriente

seguia à sua frente e parou sobre o lugar

onde estava o Menino.”

Mt 2, 10

 

 

Gosto muito de ver um céu cheio de estrelas. Quando a lua não rivaliza com elas, claro! É certo que as luzes da terra muitas vezes não as deixam ver e, por isso, uma noite no campo ou (imagino!) em pleno alto mar, é um espectáculo deslumbrante. Gosto de imaginar os mundos mais perto que elas iluminam, e até pensar que uma ou outra já não existe, mas a sua luz continua a chegar até nós. E não sei se também por isso, a estrela que guiou os magos, e os magos que seguiram aquela “irrequieta” estrela, cedo me conquistaram.

 

Enriqueceram esse encanto a leitura do conto de Sophia “Os três reis do Oriente”, o livro de Michel Tournier a eles dedicado “Gaspar, Belchior & Baltasar” (onde inventa um 4º rei mago), a iconografia natalícia de grandes pintores e, novamente Sophia com o poema “a estrela”. Como não desejar ser também um “mago do século XXI” e seguir essa estrela? “E eu caminhei na noite minha sombra / De desmedidos gestos me cercava / Silêncio e medo / Nos confins desolados caminhavam / Então eu vi chegar ao meu encontro / Aqueles que uma estrela iluminava. // E assim eles disseram: «Vem connosco / Se também vens seguindo aquela estrela» / Então soube que a estrela que eu seguia / Era real e não imaginada.”

 

Foi a observar o céu que Deus os encontrou. Naquilo que era o centro e o quotidiano da sua existência. Qual o céu em que Deus se revela a nós? Pois não será este relato dos magos talvez também a história das nossas vidas? Num dia como todos os outros, também para nós terá começado a brilhar uma estrela inesperada. Com o aspecto de um rosto, de uma palavra, de um gesto, começou a brilhar no nosso céu. Talvez no coração da noite, num momento doloroso e escuro; é aí que as estrelas se distinguem de tudo mais. E desinstalaram-nos para nos fazerem caminhar. Gostaríamos que nunca deixassem de brilhar pela segurança que nos davam. Mas como a estrela dos magos, quando acabou a sua missão, desapareceu. Orientou-nos o caminho para descobrir a face de Deus em Jesus. Pois o importante não é a estrela, mas aquilo a que ela nos conduz e que pode iluminar as nossas vidas ao longo do tempo. Que até nos aponta caminhos novos de regresso a casa.

 

Mais do que o desejo de conhecer, guiou os magos (e também a nós) a sede do encontro. O livro da natureza levou-os ao livro das Escrituras, e este guiou-os a Belém. Quem sabia não se mexeu: e os poderosos inquietaram-se. É preciso a humildade de caminhar. E volto a Sophia: “E a estrela do céu parou em cima / de uma rua sem cor e sem beleza / Onde a luz tinha a cor que tem a cinza / Longe do verde azul da natureza. // Ali não vi as coisas que eu amava / Nem o brilho do sol nem o da água. // Ao lado do hospital e da prisão / Entre o agiota e o templo profanado / Onde a rua é mais triste e mais sozinha / E onde tudo parece abandonado / Um lugar pela estrela foi marcado. // Nesse lugar pensei: «Quanto deserto / Atravessei para encontrar aquilo / Que morava entre os homens e tão perto.”

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