Tentações?

Liturgia 11 março 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

DOMINGO I DA QUARESMA Ano C

 

“Então o Diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação,

 retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.”

Lc 4, 13

 

Que é um rito? perguntou o principezinho. – É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas.” Com o desejo constante de novidade, é fácil esquecer a importância dos ritos. Eles trabalham com a memória, essa história que se consolida no interior de cada um de nós e parece estar em défice cada vez maior até nos mais novos. Memória que é também rampa de lançamento para um futuro sempre em construção. Mas não serão a memória e o futuro, duas dimensões que mais nos faltam?  

 

Entrámos na Quaresma com o rito das cinzas. Iremos terminá-la na vigília pascal com fogo, água e luz. Realidades bem palpáveis da vida, neste processo de transformação e crescimento. Evocam um caminho, de despojamento dos nossos disfarces e revelação da nossa autenticidade. De quem somos e do que somos chamados a ser. É um caminho interior, não apenas pelo íntimo de cada um, mas pelo íntimo dos grupos, das instituições, da cidade onde a comunhão entrelaça as nossa vidas e a divisão destrói tanta esperança. Sim, as cinzas evocam fim, perda e dor, derrota e tristeza que não podem ser fantasiadas. Mas são também transformação, pó que de novo pode ser amassado e receber um espírito de vida, fertilizante para sementes que ainda não germinaram.

 

As provas que Jesus teve de enfrentar para ser fiel a Deus e a nós nunca deixaram indiferentes os seus discípulos. Percebemos que são também as nossas, e se espalham ao longo da vida. Até no momento extremo da cruz, Jesus as experimentou. Elas não são uma espécie de “iniciação” ou “recruta” que só se faz uma vez. Têm a marca da escolha quotidiana, onde se revela a novidade de Deus e a grandeza humana. Em Jesus, Deus mostra que não se serve do seu poder para superar os sofrimentos que cada pessoa vive; que está para servir e não para dominar; que a confiança em Deus é mais importante do que qualquer milagre. As suas respostas às tentações do Diabo brotam da Escritura, e podemos fazê-las também nossas. Fecharmo-nos em nós, nas nossas dificuldades e sofrimentos, ou no uso egoísta dos bens, sem pensar nos outros é diabólico. Viver usando e abusando dos outros, dominando e explorando, privando-os de liberdade e direitos é diabólico. Exigir “milagres” de Deus, formas fáceis de ultrapassar as provas da vida, é diabólico. Não conhecemos estas “diabolizações” (divisões) também em nós?

 

Quantas quaresmas já viveu cada um de nós? Quantos desejos de renovação e crescimento? E fizemo-los sozinhos, com outros, com Deus? Porque “tem de ser”, “sempre se fez”, “é tradição”? Repetindo ou reinventando? A “mexer” por dentro de nós ou a “envernizar” aparências? Com “máscara quaresmal” ou “rosto lavado” pascal? A que vamos dizer “não” para poder dizer um “sim” mais corajoso e feliz?

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