E se um cego fosse o teu guia?

Liturgia 02 março 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

Ainda era muito jovem quando formulou pela primeira vez, num breve opúsculo, mais tarde qualificado como «fundamental», a tese sobre a evolução do pensamento humano em três estádios. «A história da humanidade pode ser representada num sentido, como uma evolução que vai desde a religião primitiva (feiticismo) à religião definitiva (positivismo)».

 

Aos 24 anos, Auguste Comte julgava-se um visionário, um marco incontornável da história da filosofia. A proposta do impetuoso estudante conhece algumas digressões, mas o essencial está dito: é inútil travar a evolução do pensamento, cada vez mais sofisticado, complexo e científico, que dispensa gradualmente Deus da equação existencial como fórmula para solucionar os dramas humanos.

 

Em resumo, para ele a religião primitiva mergulha o homem num mundo de sombras e escuridão, veda os olhos dos que procuram naturalmente uma explicação racional e clarividente. A visão límpida é, enfim, oferecida pela nova religião positiva. Assim, a maturidade pressupõe abandonar definitivamente o estádio da infantilização promovida pelo pensamento teológico-metafisico.

 

A experiência religiosa ofusca? Serão as suas vítimas líderes de um povo? Os membros da hierarquia associada às instituições estarão alheados da realidade, ao mesmo tempo que fabricam vendas em série para os olhos dos fiéis? As estruturas religiosas são fábricas de míopes?

 

Os anos passaram. O ano de 1822 é apenas uma marca do “período neolítico” da ciência. Entretanto, estabeleceu-se uma fronteira entre ciência e religião. Cada uma tem um objeto e um método próprio. Não são rivais. Um teólogo não tem a pretensão de apresentar a última descoberta científica, ainda que não sejam raros os contributos de inegável valor de homens da Igreja para as ciências – basta referir, a título de exemplo, na área da genética as famosas leis do monge Mendel. Já a ciência não está em condições de definir dogmas na área da metafísica e da experiência religiosa. Um cientista pode ser um visionário na sua área, mas um cego no âmbito religioso, e vice-versa. Cegos existem em ambos os lados. Não deixemos que eles nos guiem.

 

Quando relemos os textos de natureza sapiencial proclamados este domingo nas missas (Ben-Sirá 27,4-7; Salmo 91(92); 1 Coríntios 15,54-58; Lucas 6,39-45), percebemos que o objetivo não é manter no crente um espírito letárgico, antes pelo contrário. A palavra divina desperta-nos. Faz-nos ver. Ilumina o presente. Torna-nos artífices de uma história com visão de futuro.

 

Na verdade, motivados pela ligação ao transcendente, somos chamados a reconhecer o que outros rejeitam, fingem não ver, como a franja negligenciada da sociedade ou as ameaças à paz promovidas por cientismo sem valores. Mais ainda: uma e outra vez, revisitamos as nossas feridas, dizemo-nos limitados, enquadrados por palas estreitas de uma personalidade rígida, mas que deseja ver. Consciente destas dificuldades, a experiência religiosa não só abre novos horizontes, mas também leva o crente a assumir o espírito científico como a sua vocação, isto é, o chamamento de Deus ao serviço da humanidade.

 

Assim, mais do que estádios de evolução, etapas que se sucedem umas às outras, hoje poderíamos dizer ao cientista A. Comte que elas podem e devem coexistir. Uma não elimina a outra. Cada uma é uma forma especifica de abordar a realidade. Todas são necessárias para que o homem veja partes da totalidade de si e do mundo que o rodeia.

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