A revolução do amor

Liturgia 24 fevereiro 2019  •  Tempo de Leitura: 3 min

DOMINGO VII COMUM Ano C

“Amai os vossos inimigos,

 fazei bem aos que vos odeia.”

Lc 6, 20

 

 

Era surpreendente o sorriso daquela anciã, certamente nonagenária, enquanto o padre falava sobre a dificuldade em amar os inimigos. No fim da Missa, o padre, curioso com tal contentamento, foi cumprimentá-la, e não resistiu a perguntar se tinha gostado da homilia. Ela respondeu que sim, e acrescentou que a ela já não lhe custava amar os inimigos. “Ah, não?”, exclamou o padre, e perguntou: “Porquê?”. Com o mesmo sorriso, respondeu-lhe a senhora: “Sabe, senhor padre… já morreram todos!” E o padre sorriu também.

 

Há muitas páginas difíceis no Evangelho. Umas na interpretação, outras no contexto, a maioria na exigência, pelos renovados critérios de vida que Jesus apresenta. Estas páginas do “sermão da planície” em S. Lucas, não deixam ninguém indiferente. Sente-se nelas a força de um mandamento, um imperativo que ultrapassa a sugestão de um conselho: “amai”, “fazei bem”, “abençoai”, “orai”! É a marca pessoal de Jesus no seu caminho pelo mundo. E assim procuraram viver os santos. Haverá outro modo de seguir Jesus?

 

É verdade que ultrapassámos (?) a lei de Talião do livro do Levítico que dizia: “olho por olho, dente por dente”. Mas continuamos a ouvir (e a dizer) “quem não se sente, não é filho de boa gente”, para justificar pequenos ódios e vinganças. Pagar o mal com o mal, não é, infelizmente, uma realidade ultrapassada, e muitas violências são mais reprimidas que resolvidas. Jesus não nos pede passividade ou neutralidade. São precisas acções positivas, surpreendentes, sem ceder ao imediatismo da violência. Ao soldado que, na paixão de Jesus, lhe bateu na face, não deixou de o interpelar. Não nos pede que fiquemos indiferentes ao mal que alguém faz ou à injustiça imposta. A indiferença não é também uma violência?

 

O que em verdade pode mudar o mundo é esta corrente de amor. Transformamos a realidade à nossa volta de modo simples e silencioso, com pequenos gestos alternativos que diminuem o poder da violência. “Como quereis que os outros vos façam, fazei-lho vós também”: eis a regra de ouro. É apostar na antecipação do bem, quando se espera mais mal. E ser persistente. A importância da oração pelos que nos fizeram mal é a do amor que tem a fonte em Deus, verdadeiro Pai de todos. Quanta energia e quanto investimento nas variadas “indústrias de guerra” podiam ser orientados para um verdadeiro desenvolvimento da humanidade?!

 

Nada se resolve com a morte dos inimigos. O que engrandece a alma humana é a salvação de “todos os que pudermos”. E isso começa nas relações primeiras, nas famílias, entre vizinhos, nas associações, nas comunidades cristãs, nos espaços de trabalho, nos grupos a que pertencemos. Não é aí que a revolução acontece, com o nosso nome também?

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