Uma parede

Liturgia 02 fevereiro 2019  •  Tempo de Leitura: 3 min

Era apenas uma parede. De um lado o mundo. Do outro o santuário. À direita de quem entra naquele corredor, na sala ampla, tenuemente iluminada, a música ressoa permanentemente enquanto os utentes do novo espaço comercial atiram cartas à mesa, bebem e debatem, durante horas, os muitos casos do último jogo de futebol, numa espécie de prolongamento dos debates da TV. Ao fundo, a mesa de snooker está rodeada de devotos estrategas que, em silêncio religioso, põem em movimento, com a precisão de um cirurgião, as bolas coloridas. Avançamos no corredor e do outro lado, na segunda porta, também à direita, separada pela tal parede de 25 cm, meia dúzia de mulheres já alquebradas pela idade, algumas com mobilidade reduzida mas de olhar apaixonado e palavra fácil, esperam, todas as semanas, o padre para a missa.

 

Nesse dia de festa, um pouco mais tarde, juntaram-se a elas um pequeno grupo de crianças e dois adultos. A celebração decorreu no espaço provisoriamente preparado para o efeito. Os cânticos provocaram arrepios de compaixão. Não havia maquilhagem que disfarçasse: as crianças eram mesmo crianças, as flores eram de plástico sobre a mesa cambaleante, os cânticos desafinados e as idosas eram as mesmas, todos os dias, curvadas e silenciosas, à espera que a tal parede um dia desaparecesse para puderem ser contagiadas pela energia da sala ao lado.

 

Por agora, no entanto, ela permanece tal como é, de pedra e cal, pintada de tons azuis como o céu, a dizer, no entanto, a mensagem de um purgatório sem fim. De facto, aquela parede não é apenas uma parede, mas é também uma fronteira que inviabiliza a passagem entre dois mundos que se desconhecem e, de alguma forma, se autoexcluem. Vidas paralelas cuja fórmula de discursar havia sido cristalizada numa barreira, enfim, através de uma parede.

 

Ali a vida fervilhava e o fumo não era de incenso. Um pouco mais adiante, a estrada é como uma parede horizontal de alcatrão que separa outros dois mundos. O do condomínio fechado e protegido por empresas especializadas, ornado de muitas câmaras de vigilância cujos prédios escondem espaços verdejantes onde os filhos de famílias abastadas, alunos de colégios de elite, brincam livremente, como as crianças pobres do mundo ao lado, as mesmas que, a poucos metros, cantam desafinadamente e estudam em contentores húmidos da escola pública cujas obras nunca mais terminam.

 

Hoje as barreiras são justificadas ao fim do dia, à hora do jantar, à mesa e nos muitos debates televisivos. «Uma parede é um assunto sério. Absolutamente necessário. Foi Deus que assim quis», dizem alguns. Sei, porém, que as crianças de ambos os lados ainda se atrevem a sonhar com um mundo sem paredes nem abismos.

 

Sei também que amanhã vai ressoar de novo, nas assembleias de todo o mundo, inclusive nos espaços provisoriamente preparados para a celebração, como naquele bairro, as palavras do apóstolo: o amor é paciente… capaz de eliminar as barreias da ciência, das línguas, da profecia, de uma cultura… pois só o amor permanece, une, convoca.

 

E esta Palavra livre há de reacender de novo a chama da esperança.

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