Hoje mesmo

Liturgia 27 janeiro 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

DOMINGO III COMUM Ano C

“Cumpriu-se hoje mesmo

esta passagem da Escritura que acabais de ouvir.”

Lc 4, 21

 

Não é fácil vivermos o “hoje”. A sabedoria do tempo presente é dificultada pela pressa, pelas preocupações, pelos lamentos e pelos medos. Quantas vezes o passado parece prender-nos e o futuro invadir de luz ou trevas o momento que estamos a viver? É bom recordar a frase de Jesus: “Basta a cada dia o seu problema” (Mt 6, 34). Pois é “hoje” que é o tempo de ser e agir, de colher e partilhar, de fazer encontros que celebram a vida. E os encontros mais importantes de cada um de nós, planeados ou não, fazem a síntese do passado e do futuro num presente que se torna graça de Deus.

     

Numa celebração na terra onde cresceu, Jesus leu uma profecia de Isaías. Naquele encontro habitual da vida religiosa de Nazaré, as palavras lidas por Jesus revelaram o seu programa de salvação: anunciar a boa nova aos pobres, levar a redenção aos cativos, a vista aos cegos, a liberdade aos oprimidos, o ano da graça do Senhor. O encontro com a Palavra de Deus é encontro com o próprio Deus, e com a vida que Ele deseja liberta e feliz, porque ama em abundância. O passado da profecia e o futuro da sua realização tornam-se presentes na pessoa de Jesus. É assim a liturgia cristã, em que celebramos sempre a dádiva de Deus a nós em Jesus Cristo, e a nossa dádiva com Jesus ao Pai. É encontro “hoje” que nos configura com Jesus em todas as realidades das nossas vidas: nascer, crescer, alimentar, perdoar, curar, amar e servir. Para ser no mundo um sinal vivo da sua presença a dar vida. Jesus acompanha-nos e actua em nós. Ele impulsiona-nos a remover tudo o que impede o homem de ser plenamente humano.

 

A liturgia é lugar de encontro com Deus e também da comunidade cristã enquanto Povo de Deus que celebra. Além da beleza dos espaços e dos ritos, da música e do canto, a celebração da fé é chamada a educar para a interioridade, para a comunhão e para o silêncio, criando momentos que disponham à escuta de Deus.” Esta é parte do texto da Constituição Sinodal (n. 47) que dá o mote ao ano pastoral na Diocese de Lisboa: “Viver a liturgia como lugar de encontro”. Encontro de beleza e profundidade, de escuta e diálogo, que exigem conhecimento e experiência, tradição e abertura, para que não se fique na repetição vazia de palavras e gestos, mas renove em todos a alegria e a esperança. Nenhuma celebração pode fechar-se em si mesma, pois o encontro com Deus abre-nos a mente e o coração para compreender o sentido novo da história da humanidade e de cada um de nós. Quando nos oferecemos a Deus, Ele envia-nos ao encontro do mundo e dos irmãos, a inventar mil e um novos gestos de justiça e amor. O “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe” não é anestésico tranquilizante nem redoma de protecção, mas torrente de vida e fogo de amor!

 

“Hoje” é, então, um programa de vida. Como Jesus que não adiava os milagres, nem em dia de sábado, e o bom Papa S. João XXIII terminava o seu decálogo assim: “Hoje, apenas hoje, não terei qualquer medo. De modo especial não terei medo de apreciar o que é belo e de crer na bondade.” Como recebemos “hoje” o Espírito Santo, que nos configura na mesma missão libertadora de Jesus, e torna a liturgia, vida, e a vida, liturgia?

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