O despertar da Palavra

Liturgia 26 janeiro 2019  •  Tempo de Leitura: 2 min

No dia em que fui configurado, o Criador repetiu, em modo de conselho, que «a felicidade não seria um assunto pessoal, que a casa seria partilhada por outras criaturas, que estaria provisoriamente neste lado, e que faria bem em conhecer, compreender e assimilar a sabedoria dos antigos». Dei-lhe um grande abraço na despedida e agradeci-lhe, comovido, a oportunidade de vir, por tempo indeterminado, a este mundo.

 

De resto, não precisaria de dizer mais nada. As histórias dos humanos são sempre as mesmas. Em todas as viagens, quando chegamos ao destino, entre a necessidade de orientação no novo território, de fazer alianças com terceiros, de dominar elementos desconhecidos, persiste uma vaga ideia de que algo importante ficou para trás, perdido nos escombros do esquecimento. Nos dias mais intensos, porém, as velhas perguntas são como novos alfinetes – de onde venho e para onde vou?, qual é o sentido da existência?, porquê…? –, empurrando-nos, tantas vezes, para a aventura apaixonada da descoberta dos fios que nos ligam à outra margem, à origem. Há certos dias em que tendemos a desvalorizar tamanha inquietação. Contudo, pela noite dentro, as mesmas interrogações refazem-se silenciosamente debaixo da almofada na expetativa de um novo amanhecer.

 

Hoje sei que poderia optar por um «modus vivendi» tipo esquecimento crónico. Conheço pessoas que comem e bebem para manter este modo de vida. Em geral, têm um estilo remediado, imposto pela circunstância. Mas mal surge a oportunidade, a sofreguidão toma conta delas e, provisoriamente satisfeitas, repetem com entusiasmo «é o que se leva deste mundo». E riem-se com medo do amanhã, quando o tédio se instalar de novo na rotina dos dias.

 

Pela minha parte descobri, que é como quem diz, recordei, que há palavras que nos despertam para o essencial. Elas perduram no tempo. Ecoam em lugares inesperados. Entranham-se até ao mais íntimo de nós e reavivam a memória do que somos chamados a ser. Amadurecem-nos. Por vezes fazem-nos chorar, como no tempo de Neemias, ou cantar de alegria como na Sinagoga de Nazaré. Galvanizam uma assembleia. Derrubam fronteiras e conferem uma identidade. Através delas podemos retomar uma história singular, escrita em liberdade e com sentido, cuja meta será, de novo, o Criador.

 

Por vezes, imagino o reencontro. Quando chegar a hora de regressar, nada será uma novidade.

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