Vê e vai

Liturgia 28 outubro 2018  •  Tempo de Leitura: 3 min

DOMINGO XXX COMUM Ano B

«Mestre, que eu veja».

Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou.»

Mc 10, 51-52

 

Ver é não deixar ficar tudo na mesma. O maravilhamento da beleza ou um retrato do horrível movimentam a alma, abrem caminhos. Ver é comprometer-se. No primeiro relato bíblico da Criação, diz o autor, por sete vezes, que “Deus viu” como tudo era bom. Ao homem confiar-lhe-á o cuidado da criação, pois ver é, também, cuidar e aperfeiçoar. Não querer ver, deixar-se envolver pela escuridão, ou mesmo procurar a cegueira que preconceitos e ambições trazem, só promove desgraça e maldade. Ver é também libertação.

 

De luz e de sombras, de caminhos e de perguntas, de verdade e mentira se tece o belíssimo filme “A Aparição”, do realizador Xavier Giannoli. A suposta aparição da Virgem Maria a uma jovem, no interior da França, e os milhares de peregrinos que aí acorrem, é motivo para a habitual investigação de uma comissão criada pelo Vaticano. Para presidir a esta comissão é escolhido Jacques, um famoso repórter francês, a viver o trauma da morte de um amigo. O caminho de investigador céptico, as suas questões e silêncios, pontuados pela música de Arvö Part e pela cinematografia de Eric Gautier proporcionam um diálogo com o espectador, na busca da verdade e numa sofrida abertura ao mistério. A vida e a fé comungam da mesma abertura. Ver é também abrirmo-nos aos outros, reconhecer a sua grandeza e dignidade, ir ao seu encontro.

 

Antes de ver Jesus, o cego Bartimeu começou por ouvir falar dele. É ainda na escuridão que começa a pedir-lhe compaixão. Há um diálogo de vozes, como aquele que a mãe faz com o filho que traz no ventre. Ouvir é um primeiro passo para ver. Também Jesus começa por ouvir Bartimeu e pede que o tragam junto de si. Uma terceira voz participa neste encontro: os que animam o cego e o incitam a levantar-se porque Jesus está a chamá-lo. É a comunidade dos que já viram Jesus e acreditam n’Ele? O que é espantoso é o salto dado pelo cego: sem ver, guia-se pela voz, pela coragem, pela confiança. O milagre de ver transforma-se no milagre de seguir Jesus. Ver é também ir, acompanhar alguém, assumir o caminho da Páscoa, pois é para Jerusalém que segue o caminho de Jesus.

 

Culmina hoje em Roma o Sínodo dos Bispos sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. De muitos olhares se fez, certamente, este mês de reflexão. Precisamos de visões comprometidas com o Evangelho e com a realidade. Para curar cegueiras e também algumas “surdezes”. Para abrir caminhos de maior autenticidade, e mesmo voos de esperançosa ousadia. Para ver como Jesus vê, e ir, como Ele vai (já foi) à nossa frente!

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