Por vezes basta uma palavra, um pequeno gesto...

Liturgia 15 abril 2018  •  Tempo de Leitura: 8 min

1. Por vezes basta uma palavra, um pequeno gesto para se operar uma grande transformação. Não será uma palavra qualquer ou um gesto fruto do acaso, mas a palavra e o gesto que vão ao encontro das expetativas mais profundas do coração humano, que são desejadas como a chuva em tempo de seca e, por isso, são reveladoras, isto é, fazem-nos ver o que antes considerávamos inimaginável.
 
Os discípulos de Emaús reconheceram Jesus num gesto concreto: «o partir do pão». E enquanto partilhavam a experiência com os restantes discípulos, ainda cegos pela incredulidade e pelo medo, o próprio Jesus surge no meio deles e, com palavras e gestos, voltou a reafirmar: «sou eu mesmo».
 
Desde esse tempo que a comunidade dos discípulos se reúne em dia de Domingo para fazer memória das Palavras pronunciadas e do sagrado gesto de partilhar o pão, tal como aconteceu na última ceia. Reunida à volta da mesa da Palavra e do Pão, a comunidade professa a sua presença viva e atuante, não se limitando a repetir um sinal recordatório de um acontecimento passado.
 
Este é o mistério da fé, mistério extraordinário que dá rosto à comunidade dos seguidores de Jesus. Se porventura tivéssemos a ousadia de o compreender desde a perspetiva meramente racionalista, entraríamos num caminho sem saída, encetaríamos um percurso sem sentido, porque a razão não é capaz, por si mesma, de apreender o mistério que anima a fé. Motivados exclusivamente pela razão, poderíamos também dizer «nada disso é real… é uma fantasia. São crenças próprias de homens que regrediram no tempo e não acompanham o ritmo da modernidade». Na verdade, quando o homem permanece arreigado a uma leitura limitada pela razão, sofre um grande abalo todas as vezes em que é confrontado com o «mistério da fé». O espanto e o temor experienciados pelos discípulos no domingo de páscoa é também a experiência que se repete em cada um de nós, sujeitos marcados pelo hábito de procurar explicações racionais para o mistério inexplicável da fé. O Senhor está para além da razão. Está apenas ao alcance de um coração que pensa e não de uma razão que exclui o coração.
 
2. De novo, um gesto e uma palavra: Jesus mostra as mãos e os pés, sinais claros da sua paixão, e diz-lhes «tocai-me». Tocar em alguém significa que o outro se tornou acessível. Ao contrário do que por vezes imaginamos, Ele está ao nosso alcance. Ele não é um Deus distante ou ausente, mas próximo e pode ser tocado. Ele é aquele com quem podemos falar como amigo, como irmão mais velho. Não é extraordinário que assim seja? Recordemos que esta forma de relação não é algo do passado. Hoje, no silêncio do nosso quarto, sob a ação do Espírito Santo, podemos aproximar-nos e tocar o ressuscitado. Melhor: podemos deixar-nos tocar pela sua palavra transformadora, deixar que ele coloque sobre cada um de nós a mão marcada pela paixão, e cure as feridas do pecado que ainda nos escraviza. Ele fala connosco, como outrora fez em Jerusalém, num domingo de páscoa, para que também hoje possamos compreender o sentido das Escrituras.
 
Uma comunidade cujos membros não mantenham, pessoal e comunitariamente, a relação próxima e contínua com o seu mestre arrisca-se a ser apenas um grupo de pessoas que repetem rituais. Não é sinal, em si mesma, de vida ressuscitada. Pode ser também um grupo generoso de ação social, semelhante a uma ONG, mas não é o corpo de Cristo atuante no mundo. A relação com o Mestre crucificado e ressuscitado, a escuta atenta da sua Palavra, a participação na mesa onde o pão é partilhado, é fundamental e indispensável para o discípulo. Não existe outro caminho. O agir do discípulo é precedido pela relação afetuosa com o Mestre. Caso contrário, é um discípulo infiel e pretensioso que se autopromove através da comunidade crente.
 
3. «Vós sois testemunhas». Palavra forte e desafiadora dirigida aos discípulos tocados pelos gestos e pelas palavras do Mestre ressuscitado. Recordemos que eles estavam inseridos num contexto hostil. Se Jesus foi perseguido porque os seus gestos e palavras faziam estremecer as estruturas de uma cultura, de um pensamento fechado, rígido e desumano, também as suas testemunhas haviam de passar pelo mesmo processo de rejeição e morte. Como bem demonstra o livro do Atos cuja leitura é proclamada nas celebrações eucarísticas do tempo pascal, Pedro e os restantes apóstolos não se pouparam no anuncio da Boa Nova realizada em Jesus. Também eles, explicavam o sentido das escrituras e interpelavam a multidão motivando-a à conversão, isto é, ao acolhimento de Jesus como Messias, o Filho de Deus esperado. São testemunhas corajosas que com gestos extraordinários dão consistência à palavra proclamada.
 
Queridos irmãos, hoje o mundo precisa urgentemente de testemunhas de Cristo ressuscitado, capazes de renovar o ardor missionário inicial através de gestos corajosos nascidos da relação de intimidade com o Mestre da Galileia. Gestos e palavras proféticas que, como no princípio, promovem a paz e a unidade. Infelizmente, assistimos à multiplicação de gestos de agressão, palavras de ódio numa retórica populista que apenas divide e mata. É deveras preocupante o que se passa no cenário internacional. A escalada de violência na Síria, entre outros lugares, é sinal de que o homem se deixou levar pela ganância do poder e quer fazer vigorar a lei do mais forte. A história tem-nos demostrado por diversas ocasiões que, sem Deus o homem dá um passo no sentido da sua autoextinção.
 
Como comunidade crente, façamos o caminho inverso, coloquemos Cristo no centro das nossas vidas e assumamos o risco e o incómodo de testemunhá-lo (não basta ser cristão praticante…). Ser testemunha é fazer eco das palavras do Salvador e continuar os seus gestos de paz e de amor, como nos recorda o Papa Francisco na recente exortação sobre a santidade: «Alegrai-vos e Exultai!».
 
Sejamos um dos «santos ao pé da porta» testemunhando Cristo Ressuscitado!
Louvado seja N. S. JC
Para sempre seja louvado e ….

Subscrever Newsletter

Receba os artigos no seu e-mail