AIS: A última vez

Notícias 19 setembro 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

Yolla não consegue esquecer as palavras do filho quando se despediu da família ao regressar ao quartel após uma breve visita. Soldado no exército, Krikor morreria em combate sete dias mais tarde. Yolla é um exemplo da tragédia sem fim que se abateu sobre a comunidade cristã na Síria.

 

Não haverá dia em que Yolla Ghandour não se lembre do seu filho morto em combate em 2014, um dos anos mais terríveis da guerra na Síria. Não há dia em que Yolla não recorde as últimas palavras de Krikor, quase uma premonição do que lhe ia acontecer. Yolla Ghandour é uma católica sírio-arménia e vive em Alepo. Pela violência dos combates, Alepo foi considerada como a cidade-mártir desta guerra que teima em não ter fim. Para Yolla, mais ensurdecedor do que a memória dos obuses, dos silvos das bombas e até dos gritos de dor dos feridos, é o ressoar permanente das últimas palavras do seu filho quando se estava a despedir de regresso ao quartel, de regresso à guerra. Foi em Abril de 2014. “Uma semana antes de morrer, Krikor regressou a casa para nos visitar. Enquanto se preparava para partir novamente, virou-se para o pai e disse: ‘Vou regressar para a morte.’” Havia uma premonição absoluta naquelas palavras. A família dos Ghandour vivia já com enormes dificuldades, tal como a esmagadora maioria dos sírios. A guerra tinha arrasado a economia do país. “Éramos cinco: o meu marido, dois filhos e uma filha, e eu. As nossas circunstâncias financeiras pioraram como resultado da guerra. O meu marido e Krikor perderam o emprego porque a zona em que trabalhavam era perigosa…” Alguns dos bairros de Alepo foram completamente destruídos pelos insistentes bombardeamentos dos grupos jihadistas. Houve zonas da cidade que estiveram sitiadas durante semanas, meses. Foi um autêntico inferno. Mobilizado para o exército aos 19 anos, Krikor foi colocado numa zona de combates. Uma semana depois de ter visitado a família, resolveu telefonar para casa. Havia já alguma coisa que sobressaltava o coração de Yolla.

 

Certeza de uma mãe

 

“No dia em que ele morreu, falámos ao telefone e, depois de terminar o telefonema, tive um forte pressentimento, como uma premonição.” Uma mãe nunca se engana. Horas mais tarde, o telefone voltou a tocar. Yolla saiu disparada de casa rumo ao hospital mas já sabia, no seu íntimo, que não chegaria a tempo de ver o filho ainda com vida. “Disseram-me que Krikor estava ferido e que tinha sido levado para o hospital, mas, no meu íntimo, tinha quase a certeza que ele tinha morrido….” A morte de Krikor enlutou a família para sempre. Tal como eles, há pelo menos duas mil famílias cristãs que perderam um ente-querido nesta guerra sem fim. Há ainda mais de oito centenas de cristãos que foram sequestrados. Foi a pensar em todos eles que a Fundação AIS fez distribuir no passado domingo, dia 15 de Setembro, seis mil terços abençoados pelo Papa Francisco. Cada um destes terços é um sinal de proximidade, de afecto, de carinho dos cristãos para com esta comunidade tão sofrida. A vida, de certa forma, terminou para Yolla Ghandour nesse dia 16 de Abril de 2014 quando Krikor morreu dos ferimentos sofridos em combate. “Como cristãos, acreditamos na ressurreição”, diz-nos Yolla. “Aprendi que os mortos nos vêem, ouvem e sentem. E descobri que, acima de tudo, podia estar orgulhosa do meu filho.” Quando, a partir de agora, Yolla Ghandour rezar com o Terço da Fundação AIS nunca mais estará sozinha. Cada um destes terços é sinal da solidariedade de todos os cristãos em todo o mundo. Yolla não consegue esquecer as palavras do filho quando ele se despediu da família de volta ao quartel. Ele morreu mas para Yolla continua vivo na certeza de uma fé que nunca a abandonou.

Fundação de direito pontifício, a AIS ajuda os cristãos perseguidos e necessitados.

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