Pedro Abrunhosa: «A sede de mistério é o motor da humanidade»

Notícias 19 janeiro 2019  •  Tempo de Leitura: 6 min

O Papa Francisco “tem devolvido a verdadeira essência apostólica da Palavra e da mensagem bíblica”, diz Pedro Abrunhosa, nesta entrevista exclusiva ao 7MARGENS a propósito do seu novo disco. Posto à venda em Dezembro, Espiritual mantém-se no primeiro lugar da lista dos mais vendidos em Portugal. No dia da entrevista, quinta-feira, 3 de Janeiro, em Lisboa, estava ainda presente a referência da véspera, feita pelo Papa, aos cristãos que vão à missa e depois fazem o contrário do que dizem.

 

Leitor da Bíblia, que cita por exemplo em É o Diabo, uma das canções do novo disco, Abrunhosa diz que ela é um “um livro maravilhoso” e que é o livro literária, poética e religiosamente mais importante para si. Um livro que diz como há, dois mil anos, com Cristo, pela primeira vez na história foi colocada “a questão do povo, da pessoa, do outro, do pobre”.

 

No disco, e na entrevista, o autor de Viagens fala também dos refugiados, através de uma canção – Porque é que não fui eu – onde se recorda a tragédia do pequeno Aylan e que é cantada num dueto com a intensidade da voz de Ney Matogrosso.

 

A sede de mistério como motor da humanidade, a transcendência, as implicações éticas de decisões financeiras que atingem as condições de vida dos mais pobres, a necessidade de um tempo que seja “efectivamente cumprido” como uma bênção, são outros dos temas de um músico que insiste que não podemos ficar reduzidos a ser “turistas da palma da mão” mas, pelo contrário, devemos contaminar com o amor o frio em que tantas pessoas vivem. “Posso ter um mapa/ e querer estar perdido”, canta ele, em Não Vás Embora Hoje.

 

7M – Este seu novo disco é o mais vendido em Portugal, desde que foi posto à venda. É pela música, por ser o Pedro Abrunhosa, pelos poemas ou por tudo isso?

Pedro Abrunhosa (P.A.) – É um somatório, uma convergência desses factores. Há uma chancela, uma marca de autor, que as pessoas aparentemente reconhecem e sancionam através da compra. Muito do resultado também se deve ao trabalho subterrâneo feito na estrada, diariamente, tocando junto das pessoas. Não há nenhuma continuidade num trabalho artístico com resultado de sucesso permanente, que é o que acontece com a venda de discos, se não houver um trabalho muito genuíno. Genuíno na escrita, naquilo que reflecte o meu interior que, como todos os outros, tem sido sinónimo de identificação com as pessoas.

 

Há um sem-fim de pessoas que sabe o que ali está em termos literários e musicais, sabe o que está ali em termos de energia vital porque me vê ao vivo nas várias “paróquias”, se me é permitida a expressão, e essa é uma realidade porque a proximidade de um espectáculo de cinco mil pessoas em Ferreira do Zêzere ou vinte mil pessoas em Bragança ou…

 

7M – Ou muitos milhares nos Aliados…

P.A. – … essa proximidade – ou 200 mil nos Aliados – essa proximidade tem sido permanente. Portanto, quando sai o disco, geralmente, cumpre esta função. É realmente um somatório de muitos factores.

 

7M – Falando da Avenida dos Aliados, o que significou a passagem de ano com o concerto?

P.A. – Em primeiro lugar, foi devolver a música às pessoas. No Porto, foi onde tudo começou. Porque é a minha cidade natal, naturalmente, mas é também a cidade natal da minha música, porque a minha música começa nas ruas do Porto. E começa, literalmente, comigo a tocar nos sítios mais sórdidos do Porto, nas caves da Ribeira.

 

Aquela cidade é a cidade que me viu nascer e crescer e onde fui professor durante muitos anos. Vivi ali, conheço as ruas, conheço as pessoas, conheço as portas, conheço as casas que foram abaixo, as que foram erguidas. O Viagens foi escrito ali, na Rua do Heroísmo, 235. E eu disse isso perante esta multidão de 200 mil. O 235 na Rua do Heroísmo já não existe, mas o primeiro disco fala do [café] Majestic, fala da Foz, da Afurada, o segundo disco e o terceiro falam da Boavista, este fala dos Aliados, de Campanhã, do Douro…

 

Aquele é o berço, foi devolver o bebé ao berço. Há uma empatia e um reencontro do meu público, do meu Porto, do meu povo, comigo, que foi simbólico.

 

7M – Neste disco, os poemas falam do amor entre as pessoas, dos refugiados, um poema faz uma crítica muito forte ao poder financeiro… Mas o disco chama-se Espiritualidade. O título une todas essas coisas? Qual é a ideia do título?

 

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