A «fadiga» do existir?!? Caminha do temor para o amor…

Crónicas 10 junho 2017  •  Tempo de Leitura: 6 min

Todos os dias, ou quase, saímos de casa para os nossos estudos, trabalhos e ocupações do dia-a-dia. Muitas vezes, a agenda do nosso dia já está completa, parece que temos o tempo contado até para poder respirar um pouco!!! É verdade, os nossos dias são agitados, e cada vez mais. Escutamos tantas vezes: «Desculpem, só consegui chegar agora (meia hora depois) porque…»; «Não consigo estar presente porque…»; «Foram todos avisados, e vieram tão poucos», e tantas coisas mais.

 

Saímos de casa… e caminhamos pelas ruas das nossas aldeias, as avenidas coloridas das cidades, as praças enormes cheias de pessoas com máquinas fotográficas e telemóveis para recordarem, futuramente, breves instantes das suas vidas. Nessas estradas e nesses lugares não caminhamos em vão… e há tantos rostos, tantas vidas que nos tocam o coração. Olhamos com misericórdia para casos concretos de pobreza, de desprezo, de humilhação… e há uma voz interior que “grita silenciosamente”: «permanece aí… nem que seja só mais um pouco, nem que seja só a olhar, e a amar rezando».

 

São pessoas cansadas, colocadas na nossa história. Cansadas por se sentirem sós, cansadas por chorarem sozinhas, cansadas da rotina diária de estender a mão para terem algo para comer, cansadas de serem vistas como uma pessoa qualquer, um desconhecido…de quem se evita aproximação. É verdade que não é fácil… não é!!! Nem para quem clama por um momento de acolhimento, atenção, e escuta, nem para quem tem o desejo inebriante de se aproximar, sentar e conversar. Assim sendo, caminham lado a lado o temor e o amor.

 

O temor de quem evita que o outro se aproxime, porque na bagagem da vida leva algumas feridas, umas já cicatrizadas, mas outras ainda bem abertas; e também o temor de quem se quer aproximar, porque receia ser mal recebido, mal interpretado. Por mais forte que seja a vontade de deixar que o outro se abeire para dar conforto, e vice-versa (deixar-nos levar pelo amor ao encontro do outro), o temor vai estar sempre à espreita, porque há sempre um bocadinho de medo em nós, homens feitos de carno e osso, que caminhamos constantemente nas estradas da fadiga e da fragilidade.

 

Por isso, temos de arriscar na vivência do dom da escuta e do acolhimento. Quantos corações ficariam mais leves, e abertos à esperança, à confiança e ao amor, se conseguíssemos pôr em prática a verdadeira escuta…aquela que faz com que estejamos com determinada pessoa até ao fim dos seus suspiros??? O estrondoso dom da escuta deriva da fé, do que verdadeiramente me faz mover e viver. A nossa fé, a nossa vida, tem de estar projetada para além das palavras e dos gestos. A boa intenção é fundamental, mas temos de pegar com garra nas chaves frias e individualistas que o mundo, tantas vezes, nos oferece para abrir as portas do nosso coração, e deixar sair para fora o calor e a doçura do amor que nele habita. Pois, não importa se o amor que temos no nosso coração é do tamanho de um grão de açúcar… isso pouco importa!!! O que verdadeiramente interessa é que esse grãozinho de açúcar seja oferecido a outrem, e que depois esse outrem o saiba transmitir, e assim o mundo frágil aos poucos vai ganhando um pouco mais de segurança.

 

Independentemente das nossas crenças religiosas o nosso foco tem de estar na humanidade, na capacidade de tornar este mundo mais humano, mais humilde, mais cheio de esperança e vida. Estamos cá de passagem (escutamos tantas vezes); por isso façamos da nossa passagem um dom. Um dom para o mundo, para a humanidade, para as pessoas concretas das nossas vidas. A construção de um mundo melhor começa pelo fortalecimento das nossas relações mais próximas. Quando dámos o salto para nos entregar àqueles que foram colocados na nossa história, passamos para o outro lado da ponte: o amor. O temor ficou na outra margem! Agora, não olhes para trás… e vai, vai, vai… mesmo sabendo que o amor é frágil. E sabes porque que é frágil? Porque aquela pessoa que te dispões a amar – os teus pais, os teus irmãos, outros familiares, os teus amigos, os colegas de trabalhos, os professores, os catequistas, o pároco que te guia para a santidade, o religioso(a) que te dá força e esperança – um dia vai partir… vais perdê-la de vista, de deixar de senti-la fisicamente. Por isso é que nos questionamos até que ponto vale a pena pegar na minha bagagem, e passar de um lado (temor) para o outro (amor) da margem, e construir uma ponte sólida. Vale sempre a pena, porque as vidas ficam mais ricas e fixam o olhar e a esperança na eternidade. O lugar onde Deus reúne todos os seus filhos. Quando lá chegarmos nem sequer vamos ter tempo para perguntar: «Ui! Tu também estás aqui?». Porque o que mais importa é alegria do encontro, que brota da passagem do temor ao amor, e vai aliviando a fadiga do dia-a-dia.

 

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