Quantos dos nossos vizinhos «têm nome»?

Crónicas 29 outubro 2019  •  Tempo de Leitura: 3 min

39 pessoas sem nome. Perderam tudo, até o nome.


Chega ao fim o mês da missões. Termina o ano missionário convocado pela Conferência Episcopal Portuguesa. Encerraram-se os trabalhos do Sínodo sobre a Amazónia. Porém, o acontecimento "desligado" destes, ou talvez não, que mais me marcou foi a descoberta dos 39 corpos na noite de terça para quarta feira, dia 23, no estacionamento de Waterglade Industrial Park de Grays, a 35 km de Londres.


Estas pessoas percorreram o caminho conhecido por "Rota Balcânica", que vindo da Asia entram na Europa através da Turquia para chegar ao Reino Unido. 38 adultos e 1 adolescente. Sim. 39 pessoas que perderam tudo, até o nome. Um doloroso emaranhado de corpos, que serão adicionados àqueles que todos os dias terminam no fundo do mar e àqueles que simplesmente desaparecem no nada. Como li algures, «amontoados em poucos metros quadrados, no escuro, no frio, roubando uns aos outros o último suspiro.»


Talvez seja uma tragédia menos impressionante do que aquela dos barcos no mediterrâneo, mas é igualmente dramática. Porque nestas estradas flui um fluxo indomável de pessoas armadas de desespero e sonhos, que não têm escolha a não ser confiar em cruéis traficantes de seres humanos: tiram-lhes tudo o que têm, inclusive a vida. A sua existência não tem valor, nem mesmo a dignidade de uma memória…


E só consigo pensar que cada uma destas pessoas tinha uma família: um pai, uma mãe, um irmão, um filho ou um amigo… Tinha um nome, um olhar, uma voz, um sorriso… Tinha sonhos e desejos que acalentavam a esperança num futuro melhor… No entanto, acabam numa lista que alimenta o número de migrantes mortos e nada mais.


Que podemos fazer? Que posso fazer? Talvez nada… Mas o que mais me aborrece é a hipocrisia que nos abita. Sim. Aquela que nos leva a "reclamar" nas redes sociais ou em conversa entre amigos e conhecidos, porque foi noticia nos órgãos de comunicação social e, ao mesmo tempo, não conseguimos agir perante os "migrantes" ou "refugiados" que abitam a nossa rua, o nosso prédio, o nosso bairro, a nossa cidade, a nossa terra…


Quantos dos nossos vizinhos "têm nome"? Quantos dos nossos "migrantes" que serpenteiam pelas nossas ruas ou cidades "têm sonhos"?


"Sair para as periferias" não é apenas partir em missão para terras longínquas. É, acima de tudo, sair da nossa zona de conforto. É, sobretudo, sairmos de nós mesmos e criar empatia com a humanidade dos outros, principalmente dos "pobres migrantes" deste mundo, que também é o nosso.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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