Pequeno

Crónicas 10 outubro 2019  •  Tempo de Leitura: 3 min

Queria levar umas ripas de madeira para a garagem. Sabia que devia ter cuidado com a possibilidade de haver farpas. E apesar do máximo cuidado, senti a picada. Bolas!

 

Tão pequenas e chateiam tanto. Como aquelas pequenas pedras no sapato. A partir do momento que entram, não descansamos enquanto não as tiramos. Incomodam o andar, criam bolhas e magoam, apesar de pequenas.

 

Imagino ainda os vírus. Nem nos damos conta deles enquanto a temperatura do corpo não começa a subir, ou sentimos um mal estar que não nos deixa em paz. Tão pequenos, tão potentes.

 

Podemos pisar um insecto por ser pequeno. Dar pouca importância a pequenas decisões erradas, mas que sentimos serem inofensivas. Mas nem sempre o que é pequeno tem pouca importância. Qual o critério para avaliar a importância do que é pequeno?

 

”Small is beautiful.” (E. F. Schumacher)

 

Esta ideia do economista Schumacher - “o pequeno é belo” - que perfaz o título de um dos seus livros, refere-se a pequenas tecnologias que acreditamos darem poder a mais pessoas, contrastando ideias contrárias como “quanto maior, melhor.”

 

Um emoji ☺️ é pequeno, e qualquer um pode expressar-se através deles. Mas será que o sentido e significado do sorriso é o mesmo para cada pessoa?

 

Um tweet é pequeno, mas não foi Elon Musk que à custa de um pôs em risco a sua empresa de veículos eléctricos Tesla?

 

Um Like é pequeno, mas pode gerar uma empatia virtual que muda o dia de uma pessoa. Porém, será que não corre o risco de substituir a empatia real diante do outro?

 

”O problema com a intimidade digital é o de ser, em última análise, incompleta: os laços que formamos através da internet não são, no final de tudo, os laços que nos ligam.” (Sherry Turkle)

Os laços que nos ligam são os pequenos gestos plenos de autenticidade. 

 

Pequenas palavras ditas ou escritas, mas eficazes. 

 

Pequenos silêncios que abrem o coração do outro que precisa de ser escutado e compreendido. 

 

O que é pequeno pode exercer o poder de uma farpa que consome toda a nossa atenção enquanto não a retiramos. Isso significa apenas que o pequeno pode fazer toda a diferença e não deve ser menosprezado.

 

É preciso experimentar ser pequeno para entender a grandeza daquilo que realmente tem valor na vida.

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares e coordenador com a esposa das Famílias Novas, expressão dos Focolares para o mundo da família. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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