O Cão.

Crónicas 06 outubro 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

Acho que o cão não é um animal maravilhoso. Perdeu a sua utilidade como animal e não satisfaz a humanidade que se lhe pede. Mudaremos de Tópico.

 

O Humano. Porque será um maravilhoso animal?

 

Ao que parece, muita distinta gente, do alto das suas altas golas e cabelos compridos com tranças à La Francese, advoga, com toda a liberdade de o vogar, que o animal é um ser humano. Peço desculpa, engamei-me (ou seja, gamei a mim próprio o sentido desta frase). Eles (os que andem aí), pensam que o ser humano é um animal como outro qualquer. Ora, não discordo apenas com esta advogação, discordo também com as tranças!

 

Para que a produção deste artigo fosse de uma cientificidade bradante, e para que ninguém, com ou sem tranças, pudesse do seu conteúdo discordar, fui fazer o trabalho de campo, fui fazer as experiências e fui calcular a percentagem de certas coisas (porque nada que tenha percentagem pode alguma vez ser mentira, tenho cem por cento de certeza).

 

Comecei por ir ouvir um discurso de alguém que defendia tal ideia. Dizia esta pessoa , entre tranças, que tudo isto (com isto- queria dizer “a vida”), nada era mais que uma aleatoriedade de infinitos componentes que se juntavam e, por acaso, aqui estávamos nós. Teríamos sido macaquinhos em tempos. Ao que consta, fomos uma espécie de macaquinhos que andavam sempre à borda de lagos para que nos pudéssemos contemplar. Foi depois de uns momentos à volta de bananas que a nossa estrutura física, por acaso ou por percurso natural e evidente, começou a mudar. Mas, dizia entrançadamente o orador loquaz, nada somos mais que uns animais que, por sorte, se superiorizaram aos demais mas, pela mesma sorte morreremos.

 

Felizmente levantou-se um homem na assembleia que se vestia de pavão siberiano e dirigiu-lhe palavras apetrechadas de asas que passo a comunicar:

 

“Alto lá, ó colega, mas que coisa é esta? Então serás cego dos olhos ou vesgo da alma? O facto de estares aqui a falar não significa que o ser humano, ao lado de todos os animais, foi o único que sentiu a necessidade de derramar a alma através da fala? Não foi o único que, desde muito novo no mundo, sentiu a necessidade de pintar cavernas? Não foi o único que cantou melodias fora da natureza? Então diz-me lá, meu velhinho, de todas as coisas que vês no mundo, alguma é inútil? Vá, diz! Então esta coisa que habitamos não vês que está toda organizadinha? Não é com um atirar de dados, ou com o descuido de domingo à tarde que isto acontece! E nós? Somos a única coisa desta terra que não tem utilidade nenhuma. Ela até diria que passaria muito melhor sem a nossa presença. Somos animais? Claro que somos, temos os pés na terra. O peito é que nos amanda lá pra cima!”

 

Assim se foi embora aquele que vim a saber chamar-se Xenofonte Astráxio de Roupelantes. Um bom homem. A assembleia, à sua saída, aplaudiu e decidiu que mudaria de vida. No entanto, passaram um anúncio publicitário sobre um novo sabor de batatas a murro e todos se riram muito e esqueceram o que tinha acontecido.

 

Direi que realmente podemos encontrar parecenças com os animaizinhos, mas somos muito mais que o nosso corpo. Acrescentarei, para que haja cautela, que nos podemos sentir muito anjinhos, mas, enquanto aqui vivermos, seremos, mesmo que em parte, animais.

Tem 25 anos. É músico e trabalha numa casa de fados como guitarra portuguesa. A terminar o curso de estudos gerais na faculdade de letras. 

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