Já não quero saber!

Crónicas 07 junho 2017  •  Tempo de Leitura: 2 min

Cruzamos os braços. Pousamos as espadas que nos fazem ir à luta e sossegamos. Rendemo-nos. Abraçamos os dias por obrigação e damos casa à preguiça. Fazemos-lhe um jantar confortável e confortamo-la. Descansamos à sombra de conquistas antigas e contentamo-nos com o que vier e com o que houver. Fechamos as mãos. Adiamos os momentos bons que prometemos arrancar à vida. Fechamos os olhos. A quem passa. A quem fica. A quem não tem nada. A quem tem tudo mas continua triste. A quem nos segurou a porta e nos deu a gentileza do dia. A quem partilha connosco os dias e as horas. A quem vemos dia sim, dia não. Vestimos a mesma roupa de viver todos os dias. Repetimos os gestos como quem lhes perdeu o rasto. Baixamos a cabeça como quem anda à procura de razões para se levantar. Aumentamos o volume do rádio e perdemo-nos nas palavras de quem não nos conhece. Abrimos as janelas poucas vezes. Por causa do ar condicionado. Ou porque nos condicionámos a um ar rarefeito e entristecido. Mesmo quando faz sol. Já não faz sol porque já não queremos saber. Rendemo-nos. Ao que esperam de nós. Ao que deixámos de esperar. Já não queremos saber. Chuva ou sol. Doce ou salgado. Céu azul ou tormenta. Paz ou guerra. Dor ou alegria. Dança ou inércia. Cheio ou vazio. Louco ou tranquilo. Sonho ou realidade. Verdadeiro ou falso. Bonito ou feio. Bom ou mau. Pouco interessa. Pouco importa. A pouco sabe. É a pouco que nos sabe a vida quando, perante o que nos acontece, a resposta é sempre a mesma: Já não quero saber.

 

Quem nos terá ensinado a não querer saber? Ninguém. Nós é que fomos obrigados a abandonar o recinto antes do combate acabar. Desistimos de insistir no que não muda nem passa. Ainda assim, vale a pena querer cheio. Querer sol. Querer tranquilidade. Querer paz. Querer alegria. Querer doce. Querer bonito. Querer o bom. Querer o Bem. Querer bem.

 

“Já não quero saber” é virar as costas ao que está para vir. E de costas voltadas não se vê o caminho. Lá à frente. Onde o trilho continua. Continuamos. Porque (ainda) queremos saber.

Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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