Maturidade Digital

Crónicas 12 setembro 2019  •  Tempo de Leitura: 3 min

Imagina quando comes demais, o que sentes? Empanturrado, certo? Agora, imagina que abres o teu e-mail e vês as dezenas ou centenas de mensagens por abrir, o que sentes? Empanturrado. Tudo o que resulta em excesso na nossa vida não faz bem à nossa saúde. Mas enquanto há uma década ou mais, os excessos centravam-se mais na vida física, hoje, deveriam incluir a vida digital. 

 

A palavra viral saiu do círculo restrito da saúde física e passou a representar uma informação que se espalha muito rapidamente pela vida digital de milhões de pessoas. Pelo facto de se tornar numa informação contagiosa designamos por viral, mas o facto de resultar da partilha de informação, não sabemos se é, ou não, uma coisa boa.

 

Um vírus é muito pequeno e não se nota, mas afecta o nosso corpo, logo, posso concluir que uma informação que se torna viral afecta a nossa identidade digital? E qual a relação entre a nossa identidade psicossomática, ou seja, física, e a sua versão digital?

 

Quando me ponho a ver um vídeo viral, na maior parte das vezes, a experiência que faço é a de me entreter, mas a minha vida não muda, nem sequer a digital. Por isso, não espero muito que pedaços de informação virais mudem a minha vida. Por que razão perdemos tempo com coisas virais, e as partilhamos, se não transformam a nossa vida? Infelizmente, só há uma resposta que me vem à cabeça - é giro.

 

Não sei o que sentem, mas a mim sabe-me a pouco e não é tanto o tempo desperdiçado on-line com coisas virais que me incomoda, mas o que estamos a fazer de algo tão potente e transformativo como o mundo digital.

 

Quer isso dizer que devíamos partilhar mais coisas com mais sentido e significado, e que podem inspirar as pessoas a mudar de vida? Talvez. Mas ainda sabe-me a pouco. 

 

A vida digital tem o potencial de despertar a tua consciência para a realidade de como coisas grandes provêm de pequenos gestos que se tornam virais. O entretenimento pode tornar-se um excesso. E como em muitas outras dimensões da nossa vida, requer maturidade digital. 

 

Maturidade digital é a capacidade de fazer uma pergunta antes de uma partilha - “em que é que o tempo gasto com esta “coisa” viral transforma a minha vida?”


Sejamos específicos em relação a essa transformação e quando partilharmos, não partilhemos apenas a “coisa” em si, pois, mais importante ainda é partilhar a transformação que produziu em nós. Seja no modo de agir, falar, pensar, relacionar, enfim, a imaginação é o limite.

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares e coordenador com a esposa das Famílias Novas, expressão dos Focolares para o mundo da família. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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