Transformados pela Leitura

Crónicas 22 agosto 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

Será que o modo como lemos (em papel ou ecrã) altera o modo como compreendemos o conteúdo do texto? E se a escrita se torna mais leve, simples, rápida, porque não temos tempo, serão alterados os nossos hábitos de leitura, de tal modo que já não conseguimos fazer leituras mais profundas e prolongadas? 

 

Leitura e escrita estão intimamente ligados.

 

É mais difícil reler alguma coisa quando transitamos do papel para os ecrãs. Existe um lado físico no relacionamento que temos com os livros em papel, impossível de conseguir com um eBook. Houve um tempo em que não pensava assim e achava que o livro em papel tinha os dias contados. Enganei-me. Segurar o livro nas mãos, folhear com os dedos, o cheiro do próprio papel e a experiência de procurar um livro numa prateleira é incomparável.

 

Será por isso que me faz impressão ver alguém a acompanhar as leituras numa missa através do seu ecrã? Ou ver alguns sacerdotes usarem um tablet nas missas? Enquanto os dispositivos digitais são portais de informação essenciais na nossa vida, há livros em papel insubstituíveis pela sua versão digital. Quando abrimos as páginas de um livro litúrgico sentimos algo de perene, estável e de profundidade inesgotável. É um portal de comunhão com realidades que transformam a nossa realidade sem perder a actualidade do seu conteúdo. Palavras impressas que nos olham para imprimir algo em nós. Uma mensagem.

 

Essa mensagem é única por cada um de nós ser único. Apesar se serem as mesmas palavras, lidas ou escutadas, o que escrevem no coração de uma pessoa é diferente da mensagem que escrevem no coração de outra. As letras não se sobressaiem pela luminosidade do ecrã atrás de si, mas obrigam-nos a procurar uma luz exterior que ilumina interiormente. Ou seja, não nos afastam ou isolam do mundo, mas pedem-nos para interagir com esse. A visão do todo inclui a página ao lado e não gasta bateria.

 

Há palavras, como as que lês agora no ecrã, que servem para este momento, mas aquelas que vês escritas no papel servem para escavar fundo e criar uma raíz em nós que desperta a consciência plena a partir da atenção plena.

 

Por isso, é possível que muitos possam pensar em substituir o impresso pelo digital, mas o que estudiosos como Naomi Baron argumentam, cujo livro Words Onscreen li recentemente, é que o grau de concentração e de compreensão profunda de um texto consegue-se melhor em papel do que em digital. Baron diz ainda que ”a questão real é se as possibilidade da leitura digital levam-nos a um novo normal. Um normal em que o comprimento, complexidade, anotação, memória, releitura e, em especial, a concentração provam-se mais desafiantes do que ler em papel.

 

O que queremos nós experimentar quando lemos a Sagrada Escritura? Não seria algo de transformativo, profundo com efeito duradouro? Só uma consciência plena dos efeitos que as inovações tecnológicas têm sobre a nossa evolução cultural podemos encontrar o equilíbrio justo entre o digital e o impresso, que nos permita ir tanto ao longe, como em profundidade.

Professor na Universidade de Coimbra e Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Membro do Movimento dos Focolares e coordenador com a esposa das Famílias Novas, expressão dos Focolares para o mundo da família. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado em self-publishing intitula-se KeepUp - Organização do Tempo de Estudo à venda na Amazon. Em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.

Blogues: Saber Aprender e  Ciência e Fé. 

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