Guardiões uns dos outros

Crónicas 22 agosto 2019  •  Tempo de Leitura: 1 min

Sentar-nos e escutar. Olhar olhos nos olhos e exprimir atenção e cuidado.

 

Eis um dos actos sagrados do mundo e da convivência humana.

 

E quanta sede latente ou manifesta desta mesma escuta e acolhimento!

 

Talvez nos falte essa arte de quem acolhe cada pessoa como única e irrepetível, com sonhos tantas vezes escondidos e medos que não são revelados, que tolhem a pessoas e a deixam parada na vida.  

 

Talvez nos falte a arte de entender que cada encontro é a possibilidade de um novo nascimento, a possibilidade de retirar as teias dos olhos e nos podermos encantar com a verdade profunda de cada pessoa.

 

Ainda assim, teimamos em caminhar com a mala de pré-conceitos, convencidos que somos de que realmente conhecemos as pessoas, boicotando a genuína cultura do encontro. Ainda mais, quando falamos dos nossos mais íntimos e próximos.

 

Talvez nos falte a coragem de abrir a porta do coração e acompanhar os silêncios ou as lágrimas de quem muitas vezes na luta da solidão só precisa que lhe emprestemos os ouvidos. Tarefa gratuita e quantas vezes o remédio para as feridas que teimam em permanecer abertas.

 

Podemos fingir que não vemos, podemos encher a agenda de mil tarefas, podemos até enganar-nos a nós mesmos e dizer(nos) que não temos jeito para isso.

 

Porém, acolher pela escuta não é um acto heróico ou predestinado a algumas pessoas. É um acto que podemos treinar e tornarmo-nos realmente naquilo que somos: guardiões uns dos outros.

Cristina Duarte

Cronista

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