Esvaziar-se e revelar-se, por Tolentino Mendonça

Crónicas 20 abril 2019  •  Tempo de Leitura: 1 min

Apesar de não ser um termo bíblico, o termo “kenosis” inspira-se indiscutivelmente nas Escrituras, em particular naquela rara forma que aparece no hino cristológico da Carta aos Filipenses (2,7), onde se diz que Cristo «se esvaziou a si mesmo».

 

Esta é a única vez em toda a Sagrada Escritura em que o verbo «espoliar», «esvaziar», «privar de força», «reduzir a nada» - um verbo que no Novo Testamento só Paulo utiliza – conhece o modo reflexivo. É o próprio Jesus que toma a iniciativa de se esvaziar, assumindo a condição de servo.

 

Na verdade, não foi um “esvaziamento” pontual, mas ele tornou-se, aos nossos olhos, a característica do caminho de Jesus, ao ponto de podermos dizer que todo o seu itinerário no meio dos homens foi uma prática “kenótica” de abaixamento, exprimida no dom radical de si.

 

A maneira como Jesus assume a condição humana foi, até ao fim, um serviço de amor aos irmãos, reservando para si mesmo o último lugar, dispondo-se a uma progressiva humilhação, obedecendo até à morte, e morte de cruz.

 

Mas esta “kenosis” voluntária de Jesus não eclipsou a sua divindade: aliás, precisamente através daquela, Jesus revelou a sua divindade e a do Pai, porque «Deus é amor» (1 João 4,8). A “kenosis” tornou-se assim a via de acesso para que nós possamos tocar a beleza de Cristo.

 

[D. José Tolentino Mendonça | In Avvenire]

Artigos de opinião publicados em vários orgãos de comunicação social. 

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