As árvores não crescem no céu

Crónicas 12 abril 2019  •  Tempo de Leitura: 2 min

É preciso que haja terra fértil. Chão onde exista matéria em decomposição. Porque a podridão é fecunda. Porque os sonhos mais belos nascem dos contextos podres.

 

A monotonia e o tédio levam-nos a dias sem cor. Como se a morte tivesse vencido a nossa esperança. Mas nunca tem de ser assim.

 

Tudo é particular. Não há dias iguais, coisas iguais, assim como não há pessoas iguais. Nem uma mesma pessoa é igual ao que era ela própria ontem. A preguiça leva-nos a generalizações que nos poupam o pensamento. Levando-nos ao engano de julgarmos saber o que, afinal, não sabemos. Etiquetamos tudo e julgamos que está visto e será sempre assim.

 

Abrir os olhos, o coração e a razão ao que é único em cada coisa permite-nos aceder ao mundo em que vivemos, rico em beleza e autenticidade. Encontrar pontos por onde a nossa existência pode crescer.

 

Importa sair e lançar a nossa atenção para fora de nós. Como se brotássemos de nós mesmos.

 

É a partir de cada uma das nossas tristezas, sempre únicas, que podemos fazer reais as vontades íntimas de felicidade. Assim saibamos descobrir a sua força e a sua luz.

 

Tal como a ramagem de uma árvore, também a nossa existência se expande por caminhos diferentes. Uns secam, outros florescem e frutificam. Dão perfume de vida, dando-se sem critério a todos os ventos.

 

Mas é essencial que nunca nos esqueçamos das nossas raízes. Do chão que nos alimenta, sem que nem nós próprios possamos ver como. É lá, no mais fundo da nossa alma, que se encontra a semente que é nascente de onde brota a nossa vida.

 

Não devemos desperdiçar a vida julgando que é sempre igual e que será nossa para sempre.

 

Nos dias mais cinzentos e tristes, saibamos ser mais do que passivas testemunhas do mundo. Somos sempre protagonistas, mesmo quando nos parece que não há nada a fazer.

 

A vida quer viver. Basta-lhe apenas uma fresta e uma gota de água, que pode até ser de lágrima, para que se erga das funduras do chão onde, apesar de tudo, resiste e sonha com o céu.

Artigos de opinião publicados no site da Agência Ecclesia e Rádio Renascença.

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