O infinito não é uma mercadoria, por Tolentino Mendonça

Crónicas 16 março 2019  •  Tempo de Leitura: 4 min

Até há pouco, até este trânsito epocal que se vem convencionando chamar “revolução digital”, o todo era a designação que se dava a uma grandeza apenas hipotética, uma grandeza que se sabia inalcançável. A revolução digital transformou o todo (ou, por assim dizer, o infinito) numa quantidade mensurável e que se pode doravante possuir. Mas não só: o infinito tornou-se a única medida comercialmente significativa. Se uma determinada realidade não arrisca apresentar-se em termos de totalidade, passa imediatamente a estar circunscrita a uma proporção mínima e, logo, insignificante. Um dos mil exemplos que a transição digital fornece é o Spotify. Um disco é um repositório de dez ou doze canções. O Spotify é (em teoria) o repositório de toda a música do mundo. Ora, o caudal de aplicações, que hoje circulam em turbilhão, busca esse efeito, que na opinião de alguns é simplesmente tecnológico, mas que segundo outros tem inevitáveis consequências culturais e antropológicas: procura-se desativar a ideia de infinito. Recordo o que foi escrito por Alessandro Barrico num recente ensaio, intitulado “The Game”: “Se conseguires elevar o todo a unidade de medida, a épico objetivo de qualquer tarefa e a mercadoria perfeita, fazes uma vítima ilustre: o infinito. De facto, se puderes abarcar o todo, o infinito não existe.”

 

A revolução digital transformou o todo (ou, por assim dizer, o infinito) numa quantidade mensurável e que se pode doravante possuir

 

Por coincidência, neste 2019, está a comemorar-se o segundo centenário do poema ‘O Infinito’, de Giacomo Leopardi, certamente uma das líricas mais amadas do cânone ocidental, e que ele escreveu quando tinha vinte anos de idade. Apenas um ano antes, aquele miúdo macambúzio de Recanati, um lugarejo nos confins do Estado Pontifício, atreveu-se a escrever a Pietro Giordani, um dos intelectuais mais famosos daquela época. Contava que tinha visto a primavera, que tinha ficado soterrado de espanto com a primavera e que sentia, desde aí, o imperativo de se tornar poeta. Giordani dá-lhe então um conselho prudente, que Leopardi evidentemente não segue: recomendou-lhe que escrevesse ainda, durante um período longo, prosa apenas, antes de enfrentar a poesia. Pouco tempo foi necessário para que Leopardi chegasse a essa composição fulgurante, essa espécie de milagre verbal construído por 100 palavras, distribuídas em 15 versos inesquecíveis. “Sempre cara me foi esta colina deserta,/ e a sebe, que de tantos lados/ me exclui a visão do último horizonte./ Mas sentado aqui, olhando intermináveis/ espaços para além dela, e sobre-humanos/ silêncios, e a quietude mais profunda,/ no pensamento eu finjo; então por pouco/ o coração não se apavora. E o vento/ ouço gemer nas ervas, e àquele/ infinito silêncio esta voz/ vou comparando: e sobrevém-me o eterno,/ e as estações já mortas, e esta presente/ viva, com o seu ruído… É assim, que nesta/ imensidão se afoga o meu pensamento:/ E o naufrágio me é doce neste mar.” O fascínio do poema liga-se provavelmente ao seu carácter enigmático, acentuado por um balanço sucessivo de contradições que cartografam o ser do homem no mundo: há uma sebe a impedir o horizonte, mas o horizonte entra como um dique que se rompe; há um infinito silêncio descrito, porém, como uma voz; há uma experiência da imensidão avaliada como um afogamento e um naufrágio que, ao mesmo tempo, se dizem serem doces... O poema coloca-nos no interior da luta que todos provamos na carne e na alma, dentro do combate entre a finitude humana e o infinito entrevisto, isso que não conseguimos domesticar nunca numa representação, mas que não deixa de constituir um fator determinante do mistério que somos. Leopardi tem razão. O infinito não é uma mercadoria.

 

[SEMANÁRIO#2414 - 2/2/19]

Artigos de opinião publicados em vários orgãos de comunicação social. 

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