Tempo para se ter tempo

Crónicas 22 fevereiro 2019  •  Tempo de Leitura: 3 min

Agora que é necessário tempo para se ter tempo, o que estás a pensar fazer?

 

Já lá vai o tempo em que o tempo se deixava entranhar em nós e em tudo aquilo que fazíamos. Agora resta a correria dos dias que nem conseguimos contar. Sobram somente as horas fugazes em que o instantâneo não tem de acontecer. 

 

Agora que é necessário tempo para se ter tempo, o que farás com o teu silêncio? 

 

Já lá vai o tempo onde a contemplação nos elevava para a adoração. Fica-nos a inquietude e o desconforto de uma troca de olhares e de uma presença sem palavras. Mantém-se a necessidade de se ter tudo já, de se fazer tudo no agora e de nos completarmos no imediato, mas onde fica o tempo do nosso silêncio? Onde atua esse silêncio em nós e nos outros? 

 

Agora que é necessário tempo para se ter tempo, o que irás percorrer? 

 

Já lá vai o tempo onde a descoberta se fazia com as caminhadas. Onde a vida se encontrava pelo arriscar e pela ponderação, numa atuação mediada pela importância do crescimento sustentado e demorado realizado à medida de cada um. No entanto, hoje fica-se pela satisfação do prazer imediato e não pelo desfrutar intenso e saboroso que nos leva a uma continuação de nós mesmos e do outro. 

 

Agora que é necessário tempo para se ter tempo, onde irás parar? 

 

Já lá vai o tempo em que as paragens pela nossa vida e pela vida do outro eram sinónimo de sabedoria e de entrega. Era nas paragens e nos intervalos da nossa vida que nos alimentávamos de certezas e de novo partíamos como quem anda de esperanças na esperança.  Nos dias hoje parar é sinónimo de morrer e perdeu-se a compreensão de que só caminha quem para, de que só se completa quem é capaz de interpretar quando se deve descansar. 

 

Agora que é necessário tempo para se ter tempo, o que quererás tocar?

 

Já lá vai o tempo em que o toque era notícia de boa conduta, de admiração e respeito. Já lá vai o tempo onde o toque percorria as linhas da vida para maturar ainda mais a nossa humanidade e assim perceber que a vida se realiza na autenticidade da simplicidade. Hoje, o toque serve para destruir e maltratar. Hoje, o toque serve para condenar e não para ajudar. 

 

Agora que é necessário tempo para se ter tempo, que tempo darás a ti e ao outro?  

Nasceu em 1994. É estudante do Mestrado Integrado em Psicologia na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. É acólito e catequista. Adora pensar e pôr os outros a pensar. “Porque nem tudo faz sentido...” é o nome do seu blog e da sua primeira obra literária lançada em 2014. Desbrava um caminho de encontro consigo mesmo, com o outro e com Deus. “Minh'alma anseia por mais de Ti. Meu coração só deseja a Ti. Lembro do dia em que Te conheci. A minha vida mudou. A minha vida mudou.”.

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