Só somos bons quando está tudo bem?

Crónicas 23 janeiro 2019  •  Tempo de Leitura: 2 min

Mais difícil do que dizer o que está certo será, sempre, ter a coragem para fazer exatamente o que se diz. Somos feitos de teorias bastante bonitas. Apregoamos bondades e gentilezas mas, quando somos confrontados com o pior, vacilamos. Afinal já não somos feitos de doçuras e o que nos apetece (mesmo) é partir um par de pratos. Temos uma facilidade assustadora para criticar os outros. Não sabemos nada da sua história mas gostamos de adivinhá-la ou presumi-la através das folhas soltas que vamos encontrando espalhadas no espaço que fica entre o que o outro nos disse e aquilo que quisemos (ou soubemos!) ouvir. Só somos bons quando tudo está bem. Aí sim. O vento sopra de feição, a maré está baixa e meiguinha e as nuvens nem sequer se avistam. Que ousadia. Que coragem. Mas quando o vento se rebela, a maré se eriça e as nuvens chegam como enxame negro…aí a bondade já não é a mesma. Esfuma-se. Ausenta-se. Dissipa-se. Assim não vale. Não vale ser bom só quando se está bem. O verdadeiro desafio é continuar agarrado ao bom e ao bem quando tudo está mal. Quando descobrimos que respondem às nossas verdades com mentiras. Quando percebemos que nos devolvem ingratidão e confusão. Quando descobrimos o pior que os outros conseguem ser, ainda somos bons?

 

Não somos. Infelizmente, a nossa coerência é feita de vento forte. Nunca se sabe bem para que lado sopra. Talvez seja necessário mudar isso. Ou pensar sobre isso. Se eu não consigo ser sempre igual ao que me prometi, como poderei exigir isso dos que vivem comigo? Se eu só sei ser correto quando não há escarpas e o caminho é certo, como posso querer que os outros façam diferente? Deve ser por isso que nos sentimos mais sozinhos quando o vento não sopra a nosso favor. É porque só sabemos ser acalmia, quando já há calma. Só sabemos ser bons quando está tudo bem. Os outros…também.

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Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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