E se o Natal for um dia como outro qualquer?

Crónicas 19 dezembro 2018  •  Tempo de Leitura: 2 min

Tenho a certeza de que o dia de Natal não é igual para todos. Em cada casa e em cada família há tradições mais ou menos enraizadas. Mas ainda que vivamos este dia de forma distinta e separada daqueles com quem partilhamos grande parte dos nossos dias, sentimo-nos juntos. Na verdade, habita-nos uma certeza brilhante: noutras casas e noutras famílias está a acontecer e a viver-se o mesmo que nas nossas. É profundamente mais confortável pensar assim. Imaginar que os quadradinhos de luz acesos nas janelas alheias são promessa de alegria e de risos. Imaginar que as pessoas se aproximaram depois de terem estado longe durante o ano inteiro. Imaginar que, no sossego da vida de cada um dos que não estão connosco, há paz. É inevitavelmente mais aconchegante pensar assim. Contudo, a realidade nem sempre é essa e, ainda que nos custe, os cenários natalícios não são todos primos da perfeição e da quietude. Há, para muitas pessoas e para muitas famílias, uma dificuldade acrescida neste tempo que quase nos obriga a ser felizes. Como é que se pode escolher a alegria no dia de Natal se não houver grandes motivos para sorrir? Como é que se pode escolher pensar em presentes gordos e bonitos se a situação financeira for magra e sem esperança? Como é que se pode exigir que seja Natal para aqueles que atravessam o deserto da doença, da morte, da dor, da dificuldade, da agonia?

 

Desculpem. Não quero nem é minha intenção perturbar as marés pacíficas deste tempo bonito. Não desejo magoar ou apontar focos para determinadas feridas. Mas gostava que nos lembrássemos também do Natal daqueles que não sentem nada diferente neste dia. Ou melhor, que sentem um dia e uma noite iguais a tantos e tantas outras. Sem promessa de que a vida abrande só por ser Natal. Sem sinal de acalmia para a tempestade de sempre.

 

Que este Natal possamos guardar no nosso coração o respeito necessário por cada uma dessas pessoas que atravessa o deserto. Que desbrava caminho com as suas próprias mãos cansadas. Que se faz forte por todos aqueles que de si dependem e que por si esperam. Que sorri e que guarda da vida o melhor, mesmo quando não tem razões para o fazer.

 

O Natal é para todos. Até para os que nem terão tempo de olhar para ele ou para lhe dizer o nome.

Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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