A interrupção

Crónicas 17 dezembro 2018  •  Tempo de Leitura: 4 min

Quando penso neste tempo litúrgico do Advento que antecede o Natal, e que em grande medida aprofunda e desvela o seu significado, vem-me muitas vezes à cabeça um livro do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, “Morte e Vida Severina”. É um livro de poesia, como o são afinal tantos livros bíblicos. Mas este livro contemporâneo o que é que conta? Narra a história de Severino. Severino é o homem, o ser humano apenas, mais um de nós, um qualquer Adão. Severino é uma criatura provada, porque a vida é dura, implacável; a vida não retribui diretamente o sonho, o esforço, o investimento afetivo que nós nela colocamos. Aquele Severino — como muitas vezes nós — sente-se só, traído e espoliado sobre a terra. E vai numa espécie de demanda à procura de uma solução que não encontra. Perceciona, dramaticamente, a existência como inútil empresa. Repete a si mesmo que, se não encontra respostas para as áridas interrogações que traz, talvez o melhor seja pôr fim a tudo. Com estes pensamentos põe-se a caminhar perto de um rio e encontra, a dada altura, um carpinteiro chamado José, a quem pergunta se o braço de rio é suficientemente fundo e com lodo bastante para que uma vida nele se perca.

 

O carpinteiro percebe o seu tormento e tenta dissuadi-lo. Severino volta-se para José e suplica: “Então dá-me uma razão. Dá-me uma razão que seja, que diga que a vida vale a pena.” Quando estavam os dois nesta discussão, a conversa é interrompida por um coro de vizinhos, parentes e conhecidos do carpinteiro, que lhe vêm anunciar, cantando, que a sua mulher acaba de dar à luz. Somos, então, conduzidos ao lugar onde está o menino e José saúda com entusiasmo o seu nascituro. E dirigindo-se ao desesperado Severino diz que é verdade, que também ele não tem uma resposta para lhe dar, mas adianta: “Não há melhor resposta que o espetáculo da vida:/ vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida,/ ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica”. Na realidade, a vida responde manifestando-se, dando-se a si mesma, abrindo-nos ao desabalado espetáculo que é a própria existência, a esse inacreditável e despojado milagre que a vida é em si mesma. É olhando, acolhendo e abraçando a vida que podemos ser curados das nossas dúvidas, daquilo que em nós parece apenas rasgão, desolada ferida para tratar, vazio e subtração. É quando confiamos no milagre da vida que podemos olhar de outro modo para esta sensação que nos há de acompanhar até ao fim: a sensação de sermos algo de inacabado, inconclusivo, até irreparável. Penso que o Advento constitua um anual interromper a conversa.

 

Todos andamos ocupados com uma interlocução qualquer. Uma confabulação mais ou menos feliz, mais narcísica ou mais altruísta, mais isto ou mais aquilo. Esbracejamos por uma solução, pela âncora de um sentido que nem sempre é óbvio, que quase nunca é evidente ou fácil. O Advento traz uma interrupção. A conversa interrompe-se com um cortejo que vem anunciar um nascimento, que insiste em abrir-nos os olhos para repararmos antes de tudo na vida, na vida estreme, no valor da vida sem mais, nesse tesouro essencial. Na representação do Jesus que nasce não há ornamentos. Ele nasce desprovido como um Severino, sem nada, naquele curral de animais onde é só a vida que conta. O Advento é, assim, um tempo para suspender as nossas soturnas trocas de razões, os nossos longos percursos fechados, a nossa interminável inquirição. E para deixarmo-nos antes ficar diante do espetáculo da vida, da vida que incessantemente se faz nova, mesmo quando não nos apercebemos, mesmo quando julgamos qualquer saída impossível. A vida encarrega-se de fazer-nos sentir desarmados, repentinos e inocentes diante do parto de Deus.

Artigos de opinião publicados em vários orgãos de comunicação social. 

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