O Natal dos Consumistas e dos Consumidos

Crónicas 05 dezembro 2018  •  Tempo de Leitura: 5 min

Por estas alturas, levantam-se os inevitáveis profetas que nos advertem contra os malefícios do consumismo no Natal e nos exortam a não esquecer os valores do Menino Jesus, que são a família, a solidariedade, a paz, a amizade, etc. Tudo coisas boas.


Cá eu não percebo para quem são esses avisos. Nunca conheci alguém que confessasse sofrer de consumo natalício desenfreado. Nas minhas pesquisas, conclui que toda a gente quer o mesmo: passar «tempo de qualidade» com a família, oferecer coisas boas e giras aos outros, sobretudo às crianças, e aproveitar o pretexto para jantar com os amigos. Verifiquei que a esmagadora maioria quer um Natal diferente, um Natal solidário, um Natal autêntico, quentinho, de paz e harmonia, cheio de partilha. E, já que o Ano Novo está à porta, há que desejar a esperança de construir um mundo melhor. Ninguém gosta de natais artificiais, superficiais ou solitários e egoístas. Não obstante todos apoiarmos os «valores» do Natal e gostarmos muito da «Mensagem» (sempre com letra grande) do presépio, todos ajudamos a atafulhar os centros comerciais e a fazer compras que são desperdício.


Reconhecemos que o Natal é uma festa boa, porém, vê-se que todos fazemos coisas que aparentemente o estragam.


De onde surge este paradoxo? Do modo sentimental/emocional com que o Natal é esperado e celebrado e de que resulta, sem darmos por isso, no deplorado consumismo descartável. Enfim, poucos veem que o Natal é o contrário do «natal autêntico» anunciado pelo falsos profetas como um tempo de solidariedade e de afetos. É um terramoto. Um absurdo que a lógica humana não pode aceitar. É a festa da primeira vinda de Deus - o próprio -, que nasceu Homem para que cada um de nós fosse arrancado da escravidão de viver para si próprio.


Para quem, incapaz de se ajoelhar, se pensa um ser superior a qualquer necessidade de libertação, de cujas obras depende a «autenticidade» do espírito natalício, o Natal repete-se todos os anos como um pretexto para alimentar afetividades e boas intenções; a comemoração do nascimento de Deus não passa de uma gulosa efeméride, a que se segue um dia 26 de dezembro, em que o diálogo mais frequente é um frustrante «Então, esse Natal?» «Passou-se». Além dos ecopontos a abarrotar de papel de embrulho.


Para quem se vê, ou viu, acorrentado pela vaidade, concupiscências, maledicências, preguiças e vícios de toda a ordem, o Natal é uma grande alegria. Para quem, como os pastores do presépio, reconhece a sua pobreza, a vinda do Deus-Menino fá-lo-á rejubilar.


Daí nasce o desejo, não de consumir, mas de ser incendiado pelo fogo que consome em cada um todas as escravidões, todos os egoísmos. É para que cultivemos este desejo que a Igreja nos dá o Advento, um tempo forte de espera, ou melhor, de esperança. Não aquela esperança construída pelo esforço da solidariedade humana, mas a que nasce da certeza de que cada um foi criado para habitar uma nova terra - o Céu. E, mais, de que o Deus-Menino regressará em breve na Sua Glória para nos arrebatar com Ele para uma vida nova. Valerá a pena preparar a essa segunda vinda, com um exame sério de consciência e oração redobrada.


Não que faça mal, nos entretantos, ir às compras e gastar o dinheiro que se possa. Gastar dinheiro e contribuir para o lucro comercial não tem mal nenhum em si mesmo. Fundamental é que «os que compram [vivam] como se não possuíssem e os que usam deste mundo, como se não o usufruíssem plenamente» (1Cor 7,30s), tudo com os olhos do espírito postos no Céu, nas nuvens de onde o Senhor prometeu que descerá glorioso. Tudo o resto - a solidariedade, a família, a paz e alegria - serão frutos abundantes e deliciosos que o próprio Deus, na Sua vinda intermédia de cada dia, fará crescer nos corações dos que O amam.

 

[©José Diogo Marques]

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