A parábola do semeador – Parte II

Crónicas 08 novembro 2018  •  Tempo de Leitura: 4 min

A esperança ilustrada na parábola não é menos do que uma provocação: será possível, sensato, apostar novamente no fracasso? O Padre António Vieira, no seu sermão da Sexagésima, comentando a parábola coloca o dedo na ferida: «Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não.»
 
Parece que, segundo Jesus, a esperança não trabalha por algo provável ou produtivo, nem sequer meritório. Esta parábola ensina-nos que nenhuma esperança dá fruto sem o dom. Aquele dom absoluto de dar-se até à exaustão e ao desperdício. Esperar não é atributo dos sensatos, mas daqueles que amam. Porque só quem «é paciente (…) tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta»! (1 Cor 13,4.7). Este «tudo» traduz um ‘nunca’ e um ‘nada’: tudo dar, nunca desistir e nada desaproveitar.
 
Semear como ato de amor é perceber que a única semente desperdiçada não é a devorada, a precoce, a queimada, nem a sufocada, mas tão só a que permanece numa mão fechada. E Deus é o semeador que crê e ama a terra e o húmus que somos.
 
Somos pó, fragilidade. Somos também pedras de tropeço que magoam. Por vezes florescem-nos espinhos que cortam e sufocam. Noutras, devoramos o que não nos pertence, e ainda noutras tanto endurecemos até sermos impermeáveis à ternura ou à compaixão. Somos essa esterilidade, mas…MAS, apesar de tudo isso, há TERRA BOA em cada pessoa, cada ser humano.
 
A própria terra encarrega-se de ensinar ao agricultor que a matéria em decomposição nunca é desperdício, mas também tem um papel decisivo na sua fertilidade. Deus não Reina no melhor de cada um, mas em TUDO o que somos. O seu Amor espera germinar e florescer igualmente a partir dos próprios fracassos, ambiguidades e debilidades. Por enquanto nada é inevitável, nada perdeu-se, nada é desaproveitado. Assim é o Amor! Decide-se sempre no princípio, e provavelmente é o segredo para que, por fim, prevaleça…
 
Terra boa por aí não falta! A vitória Pascal brota sempre do mesmo lugar: daquele fracasso onde permaneceram a esperança e o dom até ao absurdo. O resto, só Deus mesmo pode fazer. E Esse não falha…
 
Que mais é esperado desse Amor senão, finalmente, triunfar? Portanto, a semente «caiu em terra boa e, crescendo e vicejando, deu fruto e produziu a trinta, a sessenta, e a cem por um» (Mc 4,8). As gentes da Galileia ao escutarem esta maravilhosa parábola entenderam-na tão bem, recordando a concretização de um salmo: «Aqueles que semeiam com lágrimas vão recolher com alegria. À ida vão chorar, carregando e lançando sementes; no regresso cantam de alegria, transportando os feixes de espigas» (Sl 126,5-6)
 
Gostaria de terminar com as palavras comoventes do Padre António Vieira: «Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto.»

Gustavo Cabral

Cronista

Engenheiro mecânico. Mestrado em Ciências Religiosas. Atualmente, professor de EMRC. Leigo Redentorista. Adepto de teologia e bíblia.

Subscrever Newsletter

Receba os artigos no seu e-mail