A parábola do semeador – Parte I

Crónicas 11 outubro 2018  •  Tempo de Leitura: 5 min

A parábola do semeador (Mt 13, 1-9; Mc 4,3-9; Lc 8; 4-8) é, talvez, uma das mais incompreendidas de todas as parábolas de Jesus pelo simples facto de vir associada à explicação dada pelos evangelistas uns versículos mais à frente (Mc 4,13-20; Mt 13,18-23; Lc 8,11-15). Porém, esta explicação da parábola coloca a tónica nos terrenos, tornando-se por si só numa parábola distinta, que refletia mais as preocupações das comunidades a quem os evangelistas se dirigiam, do que propriamente a intenção da narrativa de Jesus.

 

Em primeiro lugar, na cultura judaica uma parábola não se esclarece. Por si mesma ela oferece um sentido e uma interpretação. Naquele contexto tentar ‘explicar’ uma parábola seria mais ou menos semelhante a hoje tentarmos ‘explicar’ uma anedota, e fazê-lo seria retirar-lhe a piada ou o tom irónico a que se destina.

 

Do mesmo modo, no contexto bíblico uma parábola devia produzir também um efeito espontâneo no ouvinte que dispensasse qualquer explicação ou introdução. Elas visam provocar uma surpresa, um impacto que nos aproxime da realidade de Deus a despontar na vida quotidiana.

 

Por isso o termo grego parabolêsignifica aproximar e agregar duas entidades inicialmente separadas e sem relação. Contudo, hoje vivemos num contexto vital totalmente distinto. Por isso nos é tão difícil entrar no sentido profundo das parábolas. 

 

Certa vez, numa conferência em Camaldoli em 2001, o pregador dominicano Timothy Radcliffe esclareceu: «As parábolas não servem para ilustrar um ponto de vista. São acontecimentos fortes que nos mudam. Mudam as nossas vidas virando-as do avesso. (…) As parábolas de Jesus deviam agarrar-nos e arrebatar-nos. Encontramo-nos envolvidos nas parábolas e elas transformam-nos. Jesus normalmente fazia isto porque conseguia chocar as pessoas. (…) Temos de redescobrir o sentido da surpresa (…) Precisamos de reencontrar o sentido do choque.»

 

Amy-Jill Levine, teóloga e professora de Estudos do Novo Testamento e Estudos Judaicos elucida no seu livro intitulado “Short Stories by Jesus”: «Os judeus sabiam que as parábolas eram mais do que histórias para crianças ou repetições do que já é sabido. Sabiam que o objetivo das parábolas e dos contadores de parábolas era provocá-los [os seguidores de Jesus] para que vissem o mundo de outra maneira, para desafiá-los, e, às vezes, para criticá-los com dureza.» 

 

Outro dado vital a levar em conta é que as parábolas nunca são relatos fechados a uma única interpretação. Embora se centrem num acontecimento, abrem-nos sempre a novos sentidos e inquietações. Cada pessoa pode redescobrir nelas algo inaudito e relevante na forma como vê a sua realidade quotidiana a cruzar-se com a realidade de Deus.

 

Por isso, passo a oferecer uma possível interpretação (não uma explicação cabal) da parábola do semeador, partindo, por um lado, da objetividade da sua linguagem, e, por outro lado, da subjetividade a que ela me suscita e provoca.

 

Em primeira mão, é belo entender que ela centra-se na figura do semeador: «O semeador saiu a semear» (Mc 4,3). É nele, em primeiro lugar, sobre quem devemos fixar o olhar. E nele não encontramos qualquer vestígio de calculismo ou planeamento. Jesus nada nos diz se a terra foi arada, se as ervas daninhas foram arrancadas ou se foi selecionada a melhor porção de terreno. Foi mais importante realçar que o semeador simplesmente decidiu semear com alegria e confiança terreno adentro… 

 

Uma parte da semente cai à beira da estrada, outra por entre rochas, outra ainda entre espinhos. Constatamos, por isso, que afinal este semeador não dá a menor importância à qualidade dos terrenos. Pelo menos aparentemente. E assim continua alegremente, abrindo caminho, mesmo debaixo do sol escaldante e sob a ameaça de pássaros cobiçosos…

 

Os primeiros resultados confirmam desastre: ou são devoradas (Mc 4,4), ou germinam prematuras (v.5), ou queimam (v.5), ou sufocam (v.6).

 

Mas, obstinado, nada o desanima. Nada o detém. Não teme aleijar os pés, palmilhar os terrenos difíceis ou perder sementes. Parece não dar ouvidos à nossa sensatez e ao duro realismo dos resultados. A sua semeadura é INCONDICIONAL: não separa, não cria expectativa, não distingue, não segrega nem isola. Preparado ou não, tudo é terreno…

 

E se fôssemos assim? E se nos atrevêssemos a semear em terreno que ninguém se atreve a pisar? Onde ninguém aposta uma só semente? Onde ninguém já não lhe tivesse atribuído um rótulo?

 

Haverá melhor imagem da ESPERANÇA do que um semeador que decide atirar sementes em toda a parte e que só irá parar quando esvaziar as mãos?

Gustavo Cabral

Cronista

Engenheiro mecânico. Mestrado em Ciências Religiosas. Atualmente, professor de EMRC. Leigo Redentorista. Adepto de teologia e bíblia.

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