A circularidade como símbolo da comunhão trinitária

Crónicas 10 julho 2018  •  Tempo de Leitura: 4 min

«Viemos como peregrinos a Bari, janela aberta para o vizinho Oriente, trazendo no coração as nossas Igrejas, os povos e as inúmeras pessoas que vivem em situações de grande sofrimento. A eles, dizemos: ‘Estamos com vocês’.» Papa Francisco.

 

Sem desprimor para qualquer outro evento deste fim de semana, creio que este encontro ecuménico promovido pelo Papa Francisco em Bari no sábado passado, e tão pouco noticiado entre nós, foi o acontecimento mais importante. E por dois grandes motivos.

 

Primeiro, porque é "uma pedrada no charco" da indiferença mundial para com aqueles cristãos que morrem diariamente só pelo facto de serem cristãos. Cito novamente o Santo Padre: «A indiferença mata e nós queremos ser voz que contrasta o homicídio da indiferença. Queremos dar voz a quem não tem voz, a quem apenas pode engolir lágrimas, porque hoje o Médio Oriente chora, sofre e emudece, enquanto outros o espezinham à procura de poder e riquezas».

 

Naquela região onde nasceram as religiões monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e islamismo, hoje vive-se apenas a guerra, a violência e a destruição. O fundamentalismo religioso e os interesses económicos forçam as migrações e todo o clima de instabilidade. O Médio Oriente é sinónimo de gente que deixa a sua terra com a cumplicidade de tantas nações e o silêncio dos seus governantes. O cristianismo corre o risco de ser apagado de uma região inteira.

 

Francisco foi duro, mas honesto e verdadeiro. «Basta com os lucros de poucos à custa de muitos! Basta com as ocupações de terras, que dilaceram os povos! Basta de sobrepor as verdades de uma parte sobre as esperanças da gente! Basta usar o Médio Oriente para lucros alheios. A guerra é o flagelo que acomete tragicamente esta amada região e as suas vítimas são sempre a gente simples». Não se pode falar de paz enquanto houver armas. A guerra é "filha" do poder e da pobreza e muitos dos conflitos são fruto do fanatismo e do fundamentalismo que são blasfémias contra Deus.

 

Em segundo lugar, e como foi dito por Enzo Bianchi, talvez a mensagem mais importante deste encontro tenha sido a mesa redonda que se realizou dentro da Basílica de São Nicolau. Esta decorreu longe das câmaras e dos jornalistas. Se fisicamente foi de portas fechadas,  espiritualmente foi de portas escancaradas para acolher a dor e espalhar a esperança entre irmãos.

 

Ali, naquela circularidade como símbolo da comunhão trinitária, onde ninguém ocupava o primeiro lugar, mas todos à volta de um só Senhor, foram capazes de dizer uns aos outros o que estava a atormentar os seus corações e, juntos, caminharam em busca da paz que vem do Senhor. E na entrada da basílica, juntamente com as pombas anunciadoras da paz, quem sabe se não nasceu o desejo mais ardente pela unidade visível dos cristãos? Quem sabe se ao encontrarem-se juntos como irmãos à volta da mesma mesa, não seja a profecia que apressa o dia em que à mesma mesa se poderá comunicar o único pão e o único cálice,  corpo e sangue do único Senhor de todos nós?...

 

Uma semana orante e atuante na construção da paz.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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