«Colocar em casa os pobres para deixá-los dormir em pleno inverno...»

Crónicas 24 abril 2018  •  Tempo de Leitura: 3 min

«Se a fé nos faz crentes e a esperança verdadeiros, somente a caridade é que nos torna credíveis». Don Tonino Bello

 

A semana passada foi vivida pelos cristãos como semana das vocações. Este é uma questão que me é muito querida enquanto homem de fé. Cada vez mais sinto que nos fazem falta pessoas que nos "apelem ao céu". Vivemos tão ocupados com as coisas terrenas que parece que a vida se limita a este presente.

 

A citação de Dom Tonino, que já foi motivo de uma crónica, faz todo o sentido enquanto exemplo do que deve ser o exercício do episcopado. No passado dia 20, o Papa Francisco deslocou-se a Alessano, terra natal, e a Molfeta, onde foi bispo, a fim de celebrar o 25º aniversário da morte deste pastor com fama de santidade.

 

Na eucaristia celebrada em Molfeta o Papa sintetizou muito bem quem foi Don Tonino e como deve ser o verdadeiro pastor: «Poderíamos colocar um aviso, fora de cada igreja: "Depois da Missa, já não se vive para si mesmo, mas para os outros". Seria bonito que aqui, nesta diocese de don Tonino Bello, houvesse este aviso nas igrejas».

 

Este bispo "encarnou" verdadeiramente a imagem do pastor. Ficou conhecido pelo bispo "anómalo" por ter gestos muito semelhantes aos primeiros cristãos mas agora "anormais"... «É necessário ver o que significa ser anómalo. Colocar em casa os pobres para deixá-los dormir em pleno inverno, é anormal para um bispo ou não é anormal o contrário? Acolher no paço episcopal algumas famílias despejadas de sua casa é anormal ou não é anormal o seu contrário?» Para este bispo usar o Evangelho como critério para escolher e verificar aquilo que fazemos é diferente de usar o bom senso.

 

Através destes gestos, este pastor mostrava, que mesmo antes de proclamar o acolhimento, a atenção aos mais pobres, ele já vivia essa verdade. Através da sua palavra e, essencialmente, através da sua vida, o verdadeiro pastor tem que ser capaz de comunicar que Deus é o fim de todo o criado e de toda a criatura.

 

Para Don Tonino a palavra nunca era abstrata mas sempre cravejada de nomes próprios e de rostos concretos. «Obrigado, terra minha, pequena e pobre, que me fizeste nascer pobre como tu, mas que por esta razão deste-me a riqueza incomparável de perceber os pobres e hoje poder servi-los».

 

Tal como o Papa Francisco, Don Tonino gostava de estar no meio do povo: «Aquilo que vivi como pároco, jamais o esquecerei. Estar no meio da gente, chamar os paroquianos pelo nome; entrar nas suas casas nos momentos de festa e de dor; viver com eles a alegria exultante do domingo, projetar com eles os momentos fortes da vida paroquial; ter que tratar de pobres com nome, cognome e número fiscal; ficar com o cheiro do povo...»

 

Creio que estão aqui sintetizadas todas as características de um bom pastor. Não será isto que pedimos a Deus quando rezamos por "muitas e santas vocações"?

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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