Desliga-te da dependência do telemóvel, liga-te ao silêncio interior

Vaticano 14 abril 2019  •  Tempo de Leitura: 7 min

Não temer o silêncio, semente de onde nasce a árvore das virtudes, recusar a banalização do corpo, não fazer dos sentimentos um jogo, vencer o campeonato da gratuidade e do serviço foram alguns dos desafios lançados hoje pelo papa Francisco, no Vaticano, a estudantes do ensino secundário, aos quais sugeriu pistas para uma afetividade feliz e pediu, «por favor», duas atitudes: desligarem-se da «dependência do telemóvel» e não terem «medo da diversidade».

 

O mundo «precisa muito» de jovens que saibam antepor «o bem comum aos interesses pessoais», mas para o conseguir «é preciso cuidar da própria interioridade, através do estudo, da investigação, do diálogo educativo, da oração e da escuta da consciência», o que exige criar «espaços de silêncio», declarou Francisco.

 

«Não tenhais medo do silêncio, de estardes sós», nem dos «constrangimentos e da aridez que o silêncio pode comportar», encorajou o papa, antes de pedir: «Libertai-vos da dependência do telemóvel, por favor».

 

Para o papa, a dependência do telemóvel é «muito subtil»: «O telemóvel é uma grande ajuda, é um grande progresso, deve ser usado, é bom que todos saibam usá-lo. Mas quanto tu de tornas escravo do telemóvel, perdes a tua liberdade. O telemóvel é para comunicar, para a comunicação: é muito belo comunicar entre nós. Mas estai atentos, porque há o perigo de que quando o telemóvel se torna uma droga, a comunicação pode reduzir-se a simples contactos. Mas a vida não é para "contactar-se", é para comunicar», acentuou.

 

As palavras de Santo Agostinho, «no homem interior habita a verdade», «valem para todos, para quem crê e para quem não crê», porque «só no silêncio interior se pode colher a voz da consciência e distingui-la das vozes do egoísmo e do hedonismo», assinalou.

 

Tudo o que é banal e vulgar, ainda que permita viver, é escasso para o que todo o ser humano, em particular os jovens, é desafiado: «Não vos contenteis com a mediocridade nas relações entre vós, no cuidado pela interioridade, no projetar o vosso futuro, no compromisso por um mundo mais justo e mais belo»



Referindo-se à vida afetiva, Francisco frisou que «são essenciais duas dimensões, o pudor e a fidelidade»: «O sentido do pudor reenvia para a consciência vigilante em defesa da dignidade da pessoa e do amor autêntico, precisamente para não banalizar a linguagem do corpo».

 

A fidelidade, «juntamente com o respeito pelo outro, é uma dimensão imprescindível de toda a verdadeira relação de amor, porque não se pode jogar com os sentimentos», ainda que «amar não seja só uma expressão do vínculo afetivo de casal ou de amizade forte, bela e fraterna».

 

«Uma forma concreta do amor é dada também pelo compromisso solidário para com o próximo, especialmente os mais próximos», porque o amor, prosseguiu o papa, vai sempre além: «Além dos muros, além das diferenças, além dos obstáculos».

 

Sublinhando que o compromisso no voluntariado por parte de muitos dos alunos «é um sinal de esperança», Francisco propôs-lhes o repto de não se deixarem «vencer em generosidade».

 

«As próprias relações familiares, sociais, de vida em casal enriquecem-se quando está presente a dimensão do serviço na gratuidade», até porque «quem não vive para servir, não serve para viver».

 

A escola «é um laboratório que antecipa» o futuro, e nele «joga um papel importante a experiência religiosa, na qual entra tudo aquilo que é autenticamente humano»


Tudo o que é banal e vulgar, ainda que permita viver, é escasso para o que todo o ser humano, em particular os jovens, é desafiado: «Não vos contenteis com a mediocridade nas relações entre vós, no cuidado pela interioridade, no projetar o vosso futuro, no compromisso por um mundo mais justo e mais belo».

 

O papa destacou igualmente que a escola «educa para a inclusão, para o respeito das diversidades e para a colaboração»: «Por favor, não tenhais medo das diversidades. O diálogo entre as diversas culturas, as diversas pessoas, enriquece um país, enriquece a pátria e faz-nos ir para a frente no respeito recíproco, faz-nos andar para a frente vendo uma terra para todos, não apenas para alguns».

 

A escola «é um laboratório que antecipa» o futuro, e nele «joga um papel importante a experiência religiosa, na qual entra tudo aquilo que é autenticamente humano», afirmou. E deixou uma advertência: «Quando não há promoção da justiça, acabaremos seguramente num país pusilânime, egoísta, que trabalha apenas para poucos. Sem a atenção e a busca destes valores, não pode haver uma verdadeira convivência pacífica. Quando há injustiça, começa a crescer o ódio, o confronto, e acabará... todos sabemos como acaba».

 

Francisco recordou que a instituição recebida hoje, cujas raízes remontam ao século XVI, teve entre os seus estudantes personalidades como Eugénio Pacelli, futuro papa Pio XII, e Franco Modigliani, futuro prémio Nobel da Economia.

 

Desse colégio «saíram personagens importantes que contribuíram para o progresso da ciência e para o crescimento da sociedade, favorecendo um diálogo construtivo entre fé e razão».

 

«Os valores do Evangelho que animaram a cultura de gerações e gerações de italianos, possam ainda hoje iluminar as consciências, as famílias, a comunidade, para que em casa campo se aja no respeito pelos valores morais e pelo bem do homem», apontou Francisco.

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