A fusão das almas

Vaticano 04 dezembro 2018  •  Tempo de Leitura: 2 min

«A fusão das almas é mil vezes mais difícil do que a fusão dos metais. Não nasce numa hora o verdadeiro amor nem das faíscas da fricção da pedra. Antes, nasce lento e propaga-se após uma longa cumplicidade que o reforça. Só assim se torna invulnerável ao tédio e aos abandonos.»

 

São duas vozes distantes cronologicamente e espacialmente, mas ambas provêm da cultura oriental e encontram-se no tema do verdadeiro amor. A primeira imagem para o descrever é a da fusão, usada pelo poeta turco Nazim Hikmet (1902-1963), que viveu longo exílio por motivos políticos.

 

Trata-se de uma ideia à primeira vista elementar, porque dever-se-ia saber que é árduo juntar duas almas, dois caráteres, duas experiências. E no entanto não nos importamos com isso e muitas vezes acreditamos que um casamento pode surgir de uma coabitação apressada e que uma amizade é apenas uma questão de sintonia.

 

Eis, então, a segunda advertência, assinada por Ibn Hazm (994-1064), literato árabe espanhol. «O amor não é – como se costuma dizer – fulminante: ainda que nasça de uma fulguração, deve ser construído e protegido, deve crescer e reforçar-se.

 

O seu caminho não conhece apenas a exaltação e a festa, mas também o abatimento e a rotina. Não é feito só de abraços e de carícias; atravessa igualmente o tempo da obscuridade e da frieza. Mas só se é temperado e constantemente alimentado consegue ser autêntico e perene».

 

Esta reflexão ilumina as ruínas de muitos casamentos falhados e revela impiedosamente a raiz profunda do seu desmoronamento. Mas resplandece também sobre muitos casais que na velhice conhecem igualmente a «fusão das almas».

[P. (Card.) Gianfranco Ravasi | In Avvenire]

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